quinta-feira, 5 de junho de 2025
Frio nos ossos
A mente arrebentou o corpo. Sinto mal-estar por um, dois dias — febre, dor insuportável em cada milímetro do corpo. Luto para não ir ao médico, querendo me entregar, de fato, ao que quer que fosse, como uma desculpa de que uma doença me acometeu e eu não aguentei. Vou ao hospital meio arrastada: influenza. Tomo remédio na veia, mandam-me embora para casa sem qualquer receita. Minha avó me entope de chá e remédio caseiro enquanto eu ainda trabalho, de máscara e cansaço.
Tenho uma leve melhora e penso que tudo estava bem. Não comer direito já virou algo comum, fui seguindo. O exame mostrou leucopenia, imunidade baixa pela primeira vez depois de tantos anos. Quando achei que estava melhor, bum, a febre veio com tudo e a dor que me impedia de me mexer. Não conseguia nem ir ao médico. No outro dia, acordo cedo (já sem voz há alguns dias) para ir trabalhar, mas sou impedida e obrigada a ir ao hospital novamente. A influenza deixou rastros: bronquite, que eu nunca tive na vida, e uma sinusite aguda.
Entre injeções intramusculares, endovenosas, depois de ser furada inúmeras vezes — como de costume — e uma lista de medicamentos para tomar em casa, eu não me preocupei comigo nem por um segundo. Mas sim com meus pais. Tudo começou com minha mãe. Ela já estava melhorando e, até hoje, não colocou mais um cigarro na boca. Sou muito grata por isso. Oro desde a infância para ela parar, e ela sempre volta. Enfim… entro com meu pai e o obrigo, literalmente, a fazer exame também: pneumonia.
Eu não ligo nem um pouco para o que estava acontecendo comigo, mas ligo o alerta de desespero quando eles estão envolvidos. Esse final de semana entrou para a lista dos mais difíceis da minha vida. Uma angústia me tomou de um jeito que eu não conseguia nem dormir para aliviar um pouco. O choro de costume, mas a angústia estava ultrapassando. Que semana difícil essa. Tento compreender o que está acontecendo, mas não consigo chegar a lugar algum.
Eu sei que tem sido insuportável a vida, viver… e dói dizer isso porque eu paralisei. Mas os últimos dias têm sido mais intensos e eu não sei a motivação. Minha intuição — que continua fortíssima, apesar das desesperanças e da vontade de não estar aqui — me dá alguns sinais, mas eu só posso ignorá-los. Sei que isso também é uma escolha. Nada me impede de me movimentar, mas há coisas que precisam apenas ser seguidas em frente. Se é o certo ou o errado, eu não sei. Talvez seja só o necessário.
“Tudo passa, você vai ver, tudo passa.” Ela tinha razão. A vida dá um jeito de manter a gente vivo mesmo quando a gente morre de dor. Será? O que tem me mantido é a covardia do impacto que causaria na vida dos que eu amo demais. Do frio nos ossos à possibilidade de destruir a vida deles… isso me mantém, ainda que eu já tenha desistido.
Leio sempre no meu braço: “cont,nue”, olho os animais espalhados e dou uma espiada na Jurema pelo espelho. Tenho evitado me olhar. Os ossos expostos, o olhar sem o pulsar da vida e da esperança. Sei que as preces de muitas pessoas me prendem aqui com uma força sobrenatural e eu não consigo agradecer, porque a dor cega.
A vida tem me feito tantos convites a viver, a romper a dor como quem quebra as paredes e arrebenta os telhados. Mas eu estou paralisada há tanto tempo que pareço aquelas estátuas de museu: onde as pessoas olham, uns percebem, outros não se interessam… e eu continuo parada, estática. Ressoa agora na minha mente: “todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou…”
A minha casa vai começar a ser construída, e eu fico pensando: será que eu não deveria dizer para não construir? Eu não sei se vou conseguir usufruir. Queria poder ir embora e que eles aceitassem, e eu pudesse vê-los… mas eu sei que esse cenário é impossível. Me sinto egoísta, sabendo que existem tantas pessoas lutando por sua vida, e eu torço tanto para que elas vençam, torço com todo meu coração.
A dor do outro sempre me doeu mais do que a minha própria dor, e isso faz com que viver seja ainda mais difícil. Entendi que existem coisas em nossas vidas para as quais não adianta ficar buscando respostas ou significados — mesmo isso sendo difícil para mim, que sempre fui curiosa e quis saber o profundo de tudo.
Ir embora sempre me pareceu a coisa certa a fazer. E em certas ocasiões, foi mesmo — ainda que tenha sido difícil, ainda que tenha doído por anos. Mas foi o certo. Eu só penso se, em todas, foi mesmo o certo. Querer saber a resposta de tudo, a profundidade de tudo, pode fazer com que a gente não enxergue as coisas com a clareza necessária. Às vezes, a pessoa está sendo o mais profundo que consegue naquele momento — e você também. E o que ficou por dizer ou por fazer foi pelo simples fato de que o outro também não estava bem.
O diálogo parece ser feito em línguas diferentes, tudo fica turvo, ninguém enxerga mais nada com clareza , como um carro dirigindo em uma tempestade. E depois que viramos a esquina, pode ser tarde demais para fazer o retorno. Quando pensamos na possibilidade do fim, tudo se passa na nossa mente. Você tenta resolver o que ficou por resolver, continua um diálogo ou uma briga mental, lembra de coisas importantes que não disse ou deixou passar, quer deixar tudo claro, se defender ou esclarecer o que foi injustamente dito. Mas isso é ilusório. Não dá para mudar nada. O que aconteceu já foi, construiu quem você é hoje — seja bom ou ruim. Tudo faz parte de você.
Você aprende que não pode mudar o que ninguém pensa sobre você, muito menos tentar prender quem quer que seja na sua vida. É fácil? Nunca será. Eu não acho fácil deixar ir ou ir embora. E se eu for embora desse mundão, vou com a certeza de que eu tentei, como eu pude.
Enquanto eu escrevia, uma pessoa passou por mim e disse:
— Você não está bem.
Eu respondi:
— Há muito tempo…
E dei um sorriso sem graça, com os olhos lacrimejando. Ela olhou nos meus olhos e disse:
— Você é uma pessoa tão linda, você é tão boa… me dói ver você vivendo dessa forma.
Eu disse:
— Dói em mim também.
Ela tem uma filha alcoolista, passou por tantas coisas difíceis, perdeu o amor da vida dela na pandemia… e não se endureceu. Me senti tão envergonhada e, ao mesmo tempo, acolhida por seu olhar.Outra pessoa estava no meu pé para fazer o Enem e tentar medicina, disse a ela que estava tentando voltar à faculdade mas que nesse momento eu só estava tentando chegar até ao final do dia e ela me disse algo que está rodopiando na minha cabeça: " Você precisa querer um pouco mais pra você Taynã, não é possível que você não se enxergue pelo
amor de Deus! e nós não temos intimidade alguma " Eu fiquei parada olhando pra ela só querendo chorar e pensando o quanto eu era pequena na minha cabeça,o quanto eu me diminui por longos anos até desaparecer.
Deus, espiritualidade… eu os amo. Sou tão grata porque, mesmo eu tendo desistido de mim mesma, vocês não desistem. E vocês sabem de quem e do que eu estou falando. Não quero expor.
Sinto falta até do meu tipo de escrita, que não era essa. E, por vezes, penso em nunca mais escrever uma palavra… mas tem dias em que só elas podem me salvar.
Angelina
“A tristeza escraviza, nos faz dependentes de que alguma coisa aconteça, nos obriga a esperar por um olhar, um movimento, uma coragem, um amanhecer qualquer que limpe nossas águas e nos devolva a liberdade — o lugar onde a alegria encontra espaço para existir.”
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