sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Sem poesia
Desço no ponto, subo a rua escura com a leve luz da lua crescente. O céu não está bonito, mas dá para ver uma estrela muito destacada. Uma mata passa ao fundo da rua e eu não tenho medo de nada. Olho para o chão, despretensiosamente, enquanto uma música toca nos meus fones e penso: por quê? O que eu estou fazendo? Se talvez, ou quase certo, eu não esteja aqui para ver o final de nada disso.
Parece que estou me colocando no limite das coisas, parece que é a reconstrução e redenção de quem eu fui, ou talvez uma forma de me esvair em silêncio. As costas doem e a cabeça lateja incessantemente. Penso nos meus pais, mas logo não penso em mais nada que seja bom. A vontade é de deitar na cama e, como quem adormece eternamente, eu partisse, porque quando é natural há dor, mas não há culpa, e assim talvez minha alma fosse perdoada.
Tenho visto vultos e sentido presenças. Minha mãe disse que viu, pela porta da casa dela, dentro da minha também. Sempre que estou tentando escrever ultimamente, me bate um sono que geralmente deixa o texto pela metade e depois eu continuo. Fazer trocas de medicação mais uma vez, e a vontade é de pedir, por favor, uma medicação para que eu não acorde mais.
Eu acabei dormindo de novo. Estou sem lugar, nem ficar sozinha em meu quarto tem me dado algum tipo de paz. Não sei o que fazer com nada. Acordo, trabalho, como mal, vou para a faculdade, volto, e é isso. Sobre o amor? Às vezes é preciso se contentar e ter consciência da realidade, sem romantização, como diz Adélia Prado: ver pedra e enxergar pedra, sem poesia.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Nua e crua
Um dos piores sentimentos que um ser humano pode sentir é a ingratidão. Carreguei por mais de três anos a culpa de um erro cometido, como se eu não fosse um ser humano, e segui deixando que ela se achasse uma vítima.
Uma pessoa que usa de uma doença para atacar alguém, humilhar e jogar na sua cara que perdeu tempo cuidando de você, enquanto você morria ao lado sem um abraço que fosse. Injetava vitaminas para que eu conseguisse levantar da cama, mas nunca pensou em pedir ajuda à minha família, já que me tinha como um fardo.
Todo mundo me dizia como ela era nua e crua, mas eu sempre dizia que não, que as pessoas estavam erradas. Mas elas não estavam. Uma crueldade disfarçada de amor. O sonho dela deve ser saber que morri. Refere-se a mim como falecida, doida, louca, maluca para pessoas que são minhas amigas.
Ela já não existia em minha vida há muito tempo. Ela acha que cuidava de mim, mas me matava aos poucos com sua agressão passiva, tudo como ela queria. Foda-se se eu não conseguia levantar da cama, vamos a tal compromisso, visitas constantes.
Quando eu só queria um abraço e não ter essa vontade tão profunda de partir. Enxerguei ela ontem como muitas pessoas já enxergavam e me diziam, mas eu me cegava e fingia não ouvir. Afinal de contas, ela só era grosseira e sem filtro. Mas ontem eu pude ver a crueldade latente de quem ri enquanto o outro sofre.
Não, não é consciência pesada como ela acha. É te enxergar sem um pingo de amor ou empatia. Quando recebi a mensagem que ela, com esse coração frio, disse que foi o demônio que mandou, fiquei sem acreditar. Agiu como se eu tivesse ido atrás dela.
Me preocupei, achei que tivesse acontecido algo com a família, até saber como se referia a mim, de uma forma depreciativa. Não deveria ter respondido, ou talvez era o que eu precisava para enxergar as coisas como sempre foram. Enxergar alguém sem amor é como despir alguém completamente. Não há venda que deixe escapar.
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Talvez fosse um presságio
Tenho a sensação de que estou constantemente me despedindo, constantemente desistindo de mim. Tenho um buraco tão grande dentro de mim e nada preenche. Como se morresse, como se quisesse morrer com a esperança de que outra vida exista sem esse vazio no meio de mim. As medicações ajudam, controlam um pouco, mas dói. Dói sem tamanho, o tamanho imensurável das coisas invisíveis.
Me sinto completamente infeliz e, aos 36 anos, idade que eu jamais acharia que chegaria, talvez fosse um presságio de que não seria bom estar aqui depois daquele tempo em que eu tinha a certeza, desde muito cedo, de que não estaria mais aqui.
As pessoas acham que eu estou bem porque eu sou produtiva. Eu acordo às 5 da manhã, não falto ao trabalho e tenho vivido como se não tivesse um elefante gigante sentado no meu peito. Isso me preserva de criar desculpas ou me explicar. Tenho ido a lugares com pessoas demais e estímulos demais e chego à exaustão. Minha cabeça dói, fico nauseada. Quando dá para levantar e ir embora, faço isso. Quando dá para ir para a área externa, eu vou. Mas quando não dá, parece que nem o oxigênio entra de forma devida nos meus pulmões.
É tão ruim se sentir assim, existindo e sentindo que não existe. Como se só fizesse as coisas porque a vida exige que faça. Não dá para ficar em uma cama até que fosse. Exausta, muito exausta, talvez fosse o que eu gostaria de fazer: deitar na cama e, de repente, como o fim de todos nós, algo acontecesse e aqui cessasse. Mas eu não tenho coragem nem para isso.
Parece que meus sonhos foram enterrados em um lugar muito abaixo das placas tectônicas e eu fico tentando como quem está no meio do mar, não sabe nadar, mas quer chegar na areia da praia.
Eu não tenho vontade de ficar conversando com ninguém. Fico no celular por pura ansiedade. Amanhã me mudo e, enquanto fui ensacando as coisas, lembrei do dia em que fiz isso e fui embora da minha casa, que achei que seria para sempre. Não foi legal esse sentimento voltar com uma força visceral. Minha vó me rodeando com os olhos marejados e diz: quando você quiser dormir, você já vem direto pra cá, né? Sim, vó, eu venho sim. Depois ela veio na porta e disse: minha filha tá indo embora.
Fico parada no meio do quarto como quem não sabe onde está, e ela me pergunta o que foi. Não sei, vó, não sei. Gosto de morar com a senhora. Ela diz: então fica, minha filha. E eu digo, com o coração saindo pela boca, mastigado: vó, a vida precisa seguir. Ela diz: vai dar certo.
Mas a real é que eu estou me sentindo como se não tivesse dentro do meu corpo e talvez eu realmente não gostaria de estar. Eu realmente não posso deixar ninguém entrar na minha vida porque um dia alguém me disse que eu não poderia deixar alguém me amar se eu não gostava ou pretendia não estar aqui. Eu sei que vou continuar até quando for minha hora. Óbvio que posso perder o controle, mas, no momento, ele ainda existe. E, apesar de, mesmo dilacerada, querer ter alguém do meu lado, isso não seria justo. Então preciso parar de querer algo que eu não posso ter.
Queria que o mundo acabasse agora, ao menos para mim. Mas amanhã eu acordo de novo.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Imenso
Vi o menino de costas, cabisbaixo, um pouco longe de mim. Meus olhos de águia, quando preciso aguçá-los, me fizeram vê-lo mesmo distante. Chamei-o com um gesto com as mãos e, quando ele se aproximou, vi que chorava. Logo perguntei: ei, o que aconteceu? Foi aqui? Alguém te fez mal? Ele abaixava a cabeça e dizia que não. Sentei no chão mesmo e o convidei a sentar ao meu lado. Tem certeza de que não aconteceu nada aqui? Não, tia. Ele ainda é uma criança. Então por que você está chorando? Aconteceu algo em casa? Ele fez que não com a cabeça, com o choro embargado. Tentei até que me respondesse e acho que devo ter feito um minuto de silêncio. Ele disse: a vida, tia, pensando na vida. Mas em que você pensa que te deixa tão triste? Eu estou crescendo. É normal que essas mudanças te façam pensar, pode ser bom ou ruim. A maioria dos seus amigos não vai refletir sobre isso. Na minha cabeça, eu pensava que estava me vendo criança, sentada em frente a mim mesma, e pensei que a vida vai ser um pouco mais difícil para você, mas só pensei. Ele disse que tinha saudade da antiga casa e que era tudo diferente. Aquela criança é profunda demais para esse mundo raso. O que você tem hoje que é melhor do que antes? Um videogame, uma bicicleta melhor, nossas condições melhoraram. Você tem amigos? E os amigos dele já estavam ao redor, preocupados. Tivemos uma longa conversa e novamente pensei que a vida dele vai ser mais difícil, mas ele pode ser alguém incrível que vai fazer diferença no mundo. Vai brincar com seus amigos? Enxugou o rosto, os amigos já estavam de prontidão e foram correr e fazer coisas de criança. O pequeno menino imenso.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Tem que decidir
Você só esquece alguém se realmente quiser. Não existe tempo, não existe nada que essa pessoa faça que te faça esquecê-la se você não estiver irremediavelmente focada nisso. Até minha terapeuta deve sentir sua falta. Minhas amigas têm parado de ouvir seu nome, e eu sinto, a cada dia, menos falta de você.
Tive que decidir. Enquanto não fiz isso, vez ou outra, ou quase sempre, você invadia minha vida como quem abre a porta da frente da casa, como uma ventania que põe tudo para dentro e bate a porta com toda força. Parecia que eu tinha bebido uma garrafa inteira de você e depois me sentia atropelada, como quem emenda o carnaval nos bloquinhos da cidade e depois uma ressaca me abatesse e me deixasse jogada no chão, tentando vomitar uma coisa qualquer que me lembrasse você.
Sentia seu cheiro onde ele nem existia porque, na verdade, bem no fundo, eu não queria te esquecer. Eu fechava os olhos e via você, chorava de saudade e me afogava nas lágrimas que eu engolia. Se me perguntassem, eu respondia que havia te esquecido completamente, mas, na verdade, eu não queria, e isso me impedia de te esquecer.
Eu tinha dentro de mim qualquer desculpa para tudo o que havia nos separado, como quem não aceita os destinos. Quando eu estava na cama, sentia saudade do seu calor quando você me abraçava, e, se eu me esforçasse um pouquinho mais, eu sentia. Tenho uma memória fotográfica, sensorial, olfativa e sonora que me impedia de querer te esquecer.
Falta-me coragem para ficar sozinha, como diz o Baco, e ter você como lembrança não me deixava completamente só. Até o dia em que decidi que te esqueceria, e demorei muito a entender que isso só aconteceria se eu realmente, profundamente, houvesse decidido. Se é bom ou ruim, eu não sei. Mas pouco de você ainda permanece em mim.
Angelina
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Talvez morta .
Não gosto quando fico assim, praticamente não verbal. Quando chego ao meu limite, as palavras me escapam de todas as maneiras, da boca até os dedos. Me identifico com Clarice: “quando não escrevo, me sinto morta”....
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