sábado, 21 de fevereiro de 2026

Talvez fosse um presságio

Tenho a sensação de que estou constantemente me despedindo, constantemente desistindo de mim. Tenho um buraco tão grande dentro de mim e nada preenche. Como se morresse, como se quisesse morrer com a esperança de que outra vida exista sem esse vazio no meio de mim. As medicações ajudam, controlam um pouco, mas dói. Dói sem tamanho, o tamanho imensurável das coisas invisíveis. Me sinto completamente infeliz e, aos 36 anos, idade que eu jamais acharia que chegaria, talvez fosse um presságio de que não seria bom estar aqui depois daquele tempo em que eu tinha a certeza, desde muito cedo, de que não estaria mais aqui. As pessoas acham que eu estou bem porque eu sou produtiva. Eu acordo às 5 da manhã, não falto ao trabalho e tenho vivido como se não tivesse um elefante gigante sentado no meu peito. Isso me preserva de criar desculpas ou me explicar. Tenho ido a lugares com pessoas demais e estímulos demais e chego à exaustão. Minha cabeça dói, fico nauseada. Quando dá para levantar e ir embora, faço isso. Quando dá para ir para a área externa, eu vou. Mas quando não dá, parece que nem o oxigênio entra de forma devida nos meus pulmões. É tão ruim se sentir assim, existindo e sentindo que não existe. Como se só fizesse as coisas porque a vida exige que faça. Não dá para ficar em uma cama até que fosse. Exausta, muito exausta, talvez fosse o que eu gostaria de fazer: deitar na cama e, de repente, como o fim de todos nós, algo acontecesse e aqui cessasse. Mas eu não tenho coragem nem para isso. Parece que meus sonhos foram enterrados em um lugar muito abaixo das placas tectônicas e eu fico tentando como quem está no meio do mar, não sabe nadar, mas quer chegar na areia da praia. Eu não tenho vontade de ficar conversando com ninguém. Fico no celular por pura ansiedade. Amanhã me mudo e, enquanto fui ensacando as coisas, lembrei do dia em que fiz isso e fui embora da minha casa, que achei que seria para sempre. Não foi legal esse sentimento voltar com uma força visceral. Minha vó me rodeando com os olhos marejados e diz: quando você quiser dormir, você já vem direto pra cá, né? Sim, vó, eu venho sim. Depois ela veio na porta e disse: minha filha tá indo embora. Fico parada no meio do quarto como quem não sabe onde está, e ela me pergunta o que foi. Não sei, vó, não sei. Gosto de morar com a senhora. Ela diz: então fica, minha filha. E eu digo, com o coração saindo pela boca, mastigado: vó, a vida precisa seguir. Ela diz: vai dar certo. Mas a real é que eu estou me sentindo como se não tivesse dentro do meu corpo e talvez eu realmente não gostaria de estar. Eu realmente não posso deixar ninguém entrar na minha vida porque um dia alguém me disse que eu não poderia deixar alguém me amar se eu não gostava ou pretendia não estar aqui. Eu sei que vou continuar até quando for minha hora. Óbvio que posso perder o controle, mas, no momento, ele ainda existe. E, apesar de, mesmo dilacerada, querer ter alguém do meu lado, isso não seria justo. Então preciso parar de querer algo que eu não posso ter. Queria que o mundo acabasse agora, ao menos para mim. Mas amanhã eu acordo de novo.

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