sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Imenso
Vi o menino de costas, cabisbaixo, um pouco longe de mim. Meus olhos de águia, quando preciso aguçá-los, me fizeram vê-lo mesmo distante. Chamei-o com um gesto com as mãos e, quando ele se aproximou, vi que chorava. Logo perguntei: ei, o que aconteceu? Foi aqui? Alguém te fez mal? Ele abaixava a cabeça e dizia que não. Sentei no chão mesmo e o convidei a sentar ao meu lado. Tem certeza de que não aconteceu nada aqui? Não, tia. Ele ainda é uma criança. Então por que você está chorando? Aconteceu algo em casa? Ele fez que não com a cabeça, com o choro embargado. Tentei até que me respondesse e acho que devo ter feito um minuto de silêncio. Ele disse: a vida, tia, pensando na vida. Mas em que você pensa que te deixa tão triste? Eu estou crescendo. É normal que essas mudanças te façam pensar, pode ser bom ou ruim. A maioria dos seus amigos não vai refletir sobre isso. Na minha cabeça, eu pensava que estava me vendo criança, sentada em frente a mim mesma, e pensei que a vida vai ser um pouco mais difícil para você, mas só pensei. Ele disse que tinha saudade da antiga casa e que era tudo diferente. Aquela criança é profunda demais para esse mundo raso. O que você tem hoje que é melhor do que antes? Um videogame, uma bicicleta melhor, nossas condições melhoraram. Você tem amigos? E os amigos dele já estavam ao redor, preocupados. Tivemos uma longa conversa e novamente pensei que a vida dele vai ser mais difícil, mas ele pode ser alguém incrível que vai fazer diferença no mundo. Vai brincar com seus amigos? Enxugou o rosto, os amigos já estavam de prontidão e foram correr e fazer coisas de criança. O pequeno menino imenso.
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