segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Tem que decidir
Você só esquece alguém se realmente quiser. Não existe tempo, não existe nada que essa pessoa faça que te faça esquecê-la se você não estiver irremediavelmente focada nisso. Até minha terapeuta deve sentir sua falta. Minhas amigas têm parado de ouvir seu nome, e eu sinto, a cada dia, menos falta de você.
Tive que decidir. Enquanto não fiz isso, vez ou outra, ou quase sempre, você invadia minha vida como quem abre a porta da frente da casa, como uma ventania que põe tudo para dentro e bate a porta com toda força. Parecia que eu tinha bebido uma garrafa inteira de você e depois me sentia atropelada, como quem emenda o carnaval nos bloquinhos da cidade e depois uma ressaca me abatesse e me deixasse jogada no chão, tentando vomitar uma coisa qualquer que me lembrasse você.
Sentia seu cheiro onde ele nem existia porque, na verdade, bem no fundo, eu não queria te esquecer. Eu fechava os olhos e via você, chorava de saudade e me afogava nas lágrimas que eu engolia. Se me perguntassem, eu respondia que havia te esquecido completamente, mas, na verdade, eu não queria, e isso me impedia de te esquecer.
Eu tinha dentro de mim qualquer desculpa para tudo o que havia nos separado, como quem não aceita os destinos. Quando eu estava na cama, sentia saudade do seu calor quando você me abraçava, e, se eu me esforçasse um pouquinho mais, eu sentia. Tenho uma memória fotográfica, sensorial, olfativa e sonora que me impedia de querer te esquecer.
Falta-me coragem para ficar sozinha, como diz o Baco, e ter você como lembrança não me deixava completamente só. Até o dia em que decidi que te esqueceria, e demorei muito a entender que isso só aconteceria se eu realmente, profundamente, houvesse decidido. Se é bom ou ruim, eu não sei. Mas pouco de você ainda permanece em mim.
Angelina
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