sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Sem poesia

Desço no ponto, subo a rua escura com a leve luz da lua crescente. O céu não está bonito, mas dá para ver uma estrela muito destacada. Uma mata passa ao fundo da rua e eu não tenho medo de nada. Olho para o chão, despretensiosamente, enquanto uma música toca nos meus fones e penso: por quê? O que eu estou fazendo? Se talvez, ou quase certo, eu não esteja aqui para ver o final de nada disso. Parece que estou me colocando no limite das coisas, parece que é a reconstrução e redenção de quem eu fui, ou talvez uma forma de me esvair em silêncio. As costas doem e a cabeça lateja incessantemente. Penso nos meus pais, mas logo não penso em mais nada que seja bom. A vontade é de deitar na cama e, como quem adormece eternamente, eu partisse, porque quando é natural há dor, mas não há culpa, e assim talvez minha alma fosse perdoada. Tenho visto vultos e sentido presenças. Minha mãe disse que viu, pela porta da casa dela, dentro da minha também. Sempre que estou tentando escrever ultimamente, me bate um sono que geralmente deixa o texto pela metade e depois eu continuo. Fazer trocas de medicação mais uma vez, e a vontade é de pedir, por favor, uma medicação para que eu não acorde mais. Eu acabei dormindo de novo. Estou sem lugar, nem ficar sozinha em meu quarto tem me dado algum tipo de paz. Não sei o que fazer com nada. Acordo, trabalho, como mal, vou para a faculdade, volto, e é isso. Sobre o amor? Às vezes é preciso se contentar e ter consciência da realidade, sem romantização, como diz Adélia Prado: ver pedra e enxergar pedra, sem poesia.

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