segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Pequenininha

Me equilibro entre a vida e a morte como um bêbado equilibrista e, como diz Chico Buarque, “morreu na contramão atrapalhando o tráfego, morreu na contramão atrapalhando o sábado”. O mundo caminha em modo automático e nada para ou desacelera para que você se cure do que quer que seja. Pessoas rasas e egoístas atravessam você como um ônibus que atropela na faixa de pedestres; você acena e ninguém se importa. E quando você, ou quem quer que seja, pensa ou age diferente, se perde no mundo como se nem dele fizesse parte e vai se espremendo, espremendo, até caber em um canto qualquer. Eu quereria viver o raro, o intenso, o recíproco como a cachoeira descendo e se acalmando azul lá embaixo, que mesmo entre as pedras continua azul, ainda que o sol não bata azul, como se nada lhe roubasse a cor ou a beleza de simplesmente ser. Ser amada como alguém que acabasse de descobrir uma nova galáxia. Acho que provavelmente isso seja utópico demais. Olho para o céu e, mais uma vez, uma arara passa sozinha; penso: “Será que perdeu seu par?”. Logo em seguida, um casal. Como pode a solidão ou a solitude de uma arara voando sozinha me tocar tanto? (rssss) Sensibilidade exacerbada. Vejo também duas borboletas coisa rara de se ver desde que nós, humanos, começamos a degradar o meio ambiente sem dó. Uma me chamou mais atenção: era meio furta-cor. Sempre acho que é uma comunicação com o divino, uma borboleta, sobretudo pela raridade com que aparecem na cidade de concreto. Enquanto escrevo, uma joaninha atravessa à minha frente, tão pequenininha quanto eu me sinto diante do mundo. Coloco o dedo para ela subir e a ponho na árvore antes que seja pisoteada. Quase nada me escapa aos olhos. Talvez eu também quisesse ser salva como a joaninha (rs). Daria muitas coisas por um abraço, uma casa, um lar em que, quando você chega, todas as luzes se acendem como se te esperassem ansiosamente. Angelina

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

(…) Receio não dispor dos meios de expressão que lhe comuniquem meus sentimentos e anseios… — Thomas Mann, no livro “Doutor Fausto”. Cap. XLI / Ed. Cia das Letras. Trad. Herbert Caro; 1.ª edição [2015]). Obra: “Consolação”, 1894 – Edvard Munch.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

No colo das matas

Sabe quando você compra algo tendo a certeza de que não vai acontecer? Assim foi a viagem para a Chapada: comprei há alguns meses, mas tinha certeza de que não iria. Quando o ônibus quebrou e iríamos voltar para Goiânia já tendo percorrido uma boa quilometragem eu pensei em ficar, mas, de repente, resolveram consertar em outro lugar e o ônibus voltou à estrada rumo à Chapada. Mas não é sobre isso que quero escrever; é sobre a experiência espiritual que tive naquele lugar: pouco acesso à internet, imersa na natureza, trilhas íngremes e dificílimas, com matas fechadas e pedras pontiagudas, escorregadias que valeram cada esforço. Eu me senti dentro do meu corpo; senti cada pedaço dele como se ali eu nascesse e tivesse vivido uma vida inteira: arrepios, choros, tudo muito à flor da pele, que nem a medicação que “anestesia” os sentimentos podia conter. Parecia que eu havia entrado no útero do mundo, guardada no meu lugar, amparada, como se as águas me dessem colo e as matas me abraçassem carinhosamente. Quem me conhece mais intimamente sabe que eu não gosto de água gelada; tenho muita dificuldade e quase sempre recuso entrar em lugares frios. Mas mergulhei e nadei, em especial na cachoeira Santa Bárbara, que fica em uma comunidade Kalunga. Eles acreditam e eu também que Bárbara, uma senhora que morava lá, curava os escravos com aquelas águas. É como mergulhar na origem de si mesmo, e talvez eu tenha me curado de um sentimento em especial que me dói no mais íntimo. Eu pedia tanto por isso enquanto estava lá. Tenho uma dificuldade enorme de deixar de olhar com amor para as pessoas, mesmo quando isso se faz necessário para encerrar ciclos: enxergar a nudez, arrancar a máscara de alguém que você amou, entender e aceitar o que aconteceu. Acho que foi (e ainda provavelmente será) uma das coisas mais difíceis que terei de fazer em minha existência por aqui deixar todo amor e cuidado nas águas. Cada detalhe fazia meus olhos brilharem. Meu celular está abarrotado de fotos de plantas, matas, cachoeiras, animais que eu nunca havia visto e outros que pareciam íntimos demais. Mas o que minha retina fotografou é o que será eterno em mim. Sinto Jurema me pegar no colo como se pega uma criança ao dar seu primeiro choro fora do ventre. Em especial, quando eu passava pelas matas, o ponto foi cantado em voz alta por mim: “Pai João das Matas, com sua ternura, sentado em seu toco ele reza as criaturas…” E eu vi Deus nos detalhes e nas grandiosidades. Lembro de Clarice, que escreveu: “Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.” E é isso mesmo: Deus se faz presente em delicadezas que, no dia a dia, nos escapam. Eu escapei de mim mesma, e só conseguirei continuar se alcançar a corda que eu mesma joguei no buraco, agarrá-la com força e querer subir à superfície. Ninguém virá me salvar
somente eu posso sair de onde estou! São tantos sentimentos que a escrita, desta vez, não consegue contar; a imagem conta por si só. Mas é preciso ter olhos muito sensíveis e amorosos, porque, da vida, o que eu levo e deixo é o amor que me deram e que derramei por aí.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Se meu coração ..

"São tuas, portanto As canções que inventei pra embalar teu sono E as que escrevi antes de lhe conhecer também É teu o que eu ainda escreverei Todas as tentativas jogadas fora Se quando escutar sentir Por mim, carinho, eu já serei feliz São todos seus os lugares que aprendi culturas e pessoas Te conto todas pra que queira aprender também Países tão distantes de ti Secretos como seus pensamentos soltos E quando lá você estiver querendo muito estar, serei feliz E suas também são as mesas que provei as melhores delícias Heranças e mistérios que atravessam gerações Receitas não tão belas, mas boas Jantares que se arrastam por muitas horas Se essas horas, para ti, forem felizes, eu serei feliz São teus, enfim, os meus ouvidos curiosos por suas aventuras Histórias com verdade ou lendas que você criou Feitiços de ano novo pra Lua Perguntas dessa vida e talvez das outras Se o meu sono agora você embalar, então, serei feliz" ANAVITÓRIA

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

?

Tenho visto araras com uma frequência como se fosse a anunciação de alguma coisa; praticamente todos os dias, quase sem exceção. Hoje uma passou sozinha — o que raramente presencio e ela voou baixo, fez seu característico som uma só vez, e eu parei no meio da rua e fiquei olhando para o céu. Quem me visse de longe deveria achar que eu havia enlouquecido de vez. Havia tantas espécies de passarinhos sobrevoando, em camadas de alturas, que eu simplesmente esqueci onde estava; voltei como em um susto de realidade. Meu pai me liga e pede que eu vá ver a casa para escolher um detalhe. Entro e não me sinto pertencente a absolutamente lugar algum. Tento pensar onde fazer determinadas coisas que precisam ser escolhidas agora, e meu cérebro parece não funcionar, como se não houvesse em mim nenhuma criatividade ou vislumbre de possibilidade. E, mesmo com a medicação, que tem me deixado meio anestesiada como um machucado meio esquecido, que você esbarra sem querer, a casquinha sai e sangra de novo, como se acabasse de ser ferido tudo dói do mesmo jeito. Há mais de oito meses estou completamente sozinha romanticamente mas não somente mas retirando-me do mundo como se eu desaparecesse dentro de mim; olhando tudo ao redor e não conseguindo me reconhecer em nada. Era um momento para estar feliz, empolgada enfim, um lar, pequenininho, mas só meu. Mas aí é que mora o grande problema: eu não gostaria que ali fosse só meu. E aí o machucado sangra sem dó; nem o beijinho de mãe pode sarar. Estou na estrada escrevendo isso enquanto tudo rodopia na minha cabeça. O ônibus estraga o ar neste exato momento e voltaremos a Goiânia para arrumar e voltar. Seria um aviso? Minha avó sonhou que eu me afogava, mas ela nem se lembrava mais desse sonho depois que eu já havia decidido vir para um lugar rodeado de cachoeiras. Enquanto volto, penso se não devo ficar, mas o instinto de proteção não fala nada. Perdi o fio da meada e não consigo mais escrever. Até.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

segunda-feira, 15 de setembro de 2025