quinta-feira, 18 de setembro de 2025

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Tenho visto araras com uma frequência como se fosse a anunciação de alguma coisa; praticamente todos os dias, quase sem exceção. Hoje uma passou sozinha — o que raramente presencio e ela voou baixo, fez seu característico som uma só vez, e eu parei no meio da rua e fiquei olhando para o céu. Quem me visse de longe deveria achar que eu havia enlouquecido de vez. Havia tantas espécies de passarinhos sobrevoando, em camadas de alturas, que eu simplesmente esqueci onde estava; voltei como em um susto de realidade. Meu pai me liga e pede que eu vá ver a casa para escolher um detalhe. Entro e não me sinto pertencente a absolutamente lugar algum. Tento pensar onde fazer determinadas coisas que precisam ser escolhidas agora, e meu cérebro parece não funcionar, como se não houvesse em mim nenhuma criatividade ou vislumbre de possibilidade. E, mesmo com a medicação, que tem me deixado meio anestesiada como um machucado meio esquecido, que você esbarra sem querer, a casquinha sai e sangra de novo, como se acabasse de ser ferido tudo dói do mesmo jeito. Há mais de oito meses estou completamente sozinha romanticamente mas não somente mas retirando-me do mundo como se eu desaparecesse dentro de mim; olhando tudo ao redor e não conseguindo me reconhecer em nada. Era um momento para estar feliz, empolgada enfim, um lar, pequenininho, mas só meu. Mas aí é que mora o grande problema: eu não gostaria que ali fosse só meu. E aí o machucado sangra sem dó; nem o beijinho de mãe pode sarar. Estou na estrada escrevendo isso enquanto tudo rodopia na minha cabeça. O ônibus estraga o ar neste exato momento e voltaremos a Goiânia para arrumar e voltar. Seria um aviso? Minha avó sonhou que eu me afogava, mas ela nem se lembrava mais desse sonho depois que eu já havia decidido vir para um lugar rodeado de cachoeiras. Enquanto volto, penso se não devo ficar, mas o instinto de proteção não fala nada. Perdi o fio da meada e não consigo mais escrever. Até.

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