segunda-feira, 22 de setembro de 2025
No colo das matas
Sabe quando você compra algo tendo a certeza de que não vai acontecer? Assim foi a viagem para a Chapada: comprei há alguns meses, mas tinha certeza de que não iria. Quando o ônibus quebrou e iríamos voltar para Goiânia já tendo percorrido uma boa quilometragem eu pensei em ficar, mas, de repente, resolveram consertar em outro lugar e o ônibus voltou à estrada rumo à Chapada.
Mas não é sobre isso que quero escrever; é sobre a experiência espiritual que tive naquele lugar: pouco acesso à internet, imersa na natureza, trilhas íngremes e dificílimas, com matas fechadas e pedras pontiagudas, escorregadias que valeram cada esforço. Eu me senti dentro do meu corpo; senti cada pedaço dele como se ali eu nascesse e tivesse vivido uma vida inteira: arrepios, choros, tudo muito à flor da pele, que nem a medicação que “anestesia” os sentimentos podia conter. Parecia que eu havia entrado no útero do mundo, guardada no meu lugar, amparada, como se as águas me dessem colo e as matas me abraçassem carinhosamente.
Quem me conhece mais intimamente sabe que eu não gosto de água gelada; tenho muita dificuldade e quase sempre recuso entrar em lugares frios. Mas mergulhei e nadei, em especial na cachoeira Santa Bárbara, que fica em uma comunidade Kalunga. Eles acreditam e eu também que Bárbara, uma senhora que morava lá, curava os escravos com aquelas águas. É como mergulhar na origem de si mesmo, e talvez eu tenha me curado de um sentimento em especial que me dói no mais íntimo. Eu pedia tanto por isso enquanto estava lá.
Tenho uma dificuldade enorme de deixar de olhar com amor para as pessoas, mesmo quando isso se faz necessário para encerrar ciclos: enxergar a nudez, arrancar a máscara de alguém que você amou, entender e aceitar o que aconteceu. Acho que foi (e ainda provavelmente será) uma das coisas mais difíceis que terei de fazer em minha existência por aqui deixar todo amor e cuidado nas águas.
Cada detalhe fazia meus olhos brilharem. Meu celular está abarrotado de fotos de plantas, matas, cachoeiras, animais que eu nunca havia visto e outros que pareciam íntimos demais. Mas o que minha retina fotografou é o que será eterno em mim. Sinto Jurema me pegar no colo como se pega uma criança ao dar seu primeiro choro fora do ventre. Em especial, quando eu passava pelas matas, o ponto foi cantado em voz alta por mim:
“Pai João das Matas, com sua ternura, sentado em seu toco ele reza as criaturas…”
E eu vi Deus nos detalhes e nas grandiosidades.
Lembro de Clarice, que escreveu: “Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.” E é isso mesmo: Deus se faz presente em delicadezas que, no dia a dia, nos escapam.
Eu escapei de mim mesma, e só conseguirei continuar se alcançar a corda que eu mesma joguei no buraco, agarrá-la com força e querer subir à superfície. Ninguém virá me salvar somente eu posso sair de onde estou!
São tantos sentimentos que a escrita, desta vez, não consegue contar; a imagem conta por si só. Mas é preciso ter olhos muito sensíveis e amorosos, porque, da vida, o que eu levo e deixo é o amor que me deram e que derramei por aí.
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