sexta-feira, 17 de julho de 2026

Salva-vidas

Eu poderia escrever os versos mais tristes desta noite, e até as pessoas mais insensíveis do mundo chorariam um oceano inteiro, assim como eu quase inundo meu colchão neste quarto escuro, silencioso, vazio e quieto, como é há alguns anos. Uma pessoa me disse que aprendeu a amar a própria companhia, mas a minha é barulhenta demais. Eu gosto do silêncio que o outro causa em mim. A voz do outro, a pele e o coração fazem a minha mente silenciar. Fazem com que eu deixe de ouvir o meu próprio coração para ouvir o do outro, e isso me acalma, como quando tomo um banho muito quente com um sabonete Pompom da caixinha amarela ou quando me sento à beira-mar e as ondas batem nos meus pés enquanto o calorzinho do sol, se despedindo, atravessa cada camada da minha pele. Sabe aqueles filmes dramáticos em que a pessoa fica presa, sei lá, em uma ilha? É assim com quem fica preso ao passado. O presente parece pausado, mesmo correndo, mesmo acontecendo, e o futuro vem ferozmente, trazendo um medo paralisante que só ele parece ter, com tanta violência. Então, ficamos apreensivos por algo que pode nunca chegar, nem sequer acontecer. Acho extraordinário quem vive o presente com todas as entranhas, como se hoje fosse, de fato, o último dia, o derradeiro, a última conversa, aquela que quase todo mundo gostaria de ter tido com alguém. Porque pode ser. Pode muito bem ser. E foi num dia banal que eu passei deitada na minha cama, enquanto o mundo gritava para que eu vivesse e parasse de apenas sobreviver. Eu preciso sair da ilha, de barco, de boia ou a nado. Pouco importa como, porque, se eu não sair, vou morrer de sede, de fome, afogada na vida. O meu passado precisa ficar enterrado, e eu preciso parar de esperar qualquer coisa que venha dele, porque não dá para voltar. Não vai acontecer. É impossível. E eu não queria me afogar; eu queria velejar, como nas águas claras do Nordeste. Aqui está escuro demais, e eu me acostumei com essa escuridão. Do passado, eu queria quem eu era. Isso eu queria com toda a força do meu coração. Acho que, naquela ilha, eu realmente me perdi. E preciso parar de esperar que alguém jogue um bote para mim. Ninguém vem. E essa é a terrível verdade dos fatos: ninguém vem. Se eu não nadar, vou me afogar. E não haverá salva-vidas.

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