sábado, 23 de maio de 2026
Molhar os pés
Porque você se nega ao paraíso? Como não se acha merecedora? Por que você tem medo do amor? Não sei, ou talvez eu saiba.
Enquanto acaricio meus próprios cabelos com meus dedos longos sob o couro cabeludo, fecho os olhos como se estes dedos não fossem meus. A ânsia pelo toque, pelo carinho, às vezes engana nosso cérebro. A música diz: “quem não tem pra quem se dar, o dia é igual à noite”.
Dormi o dia inteiro como quem tomasse uma dose cavalar de calmante. Abria os olhos com dificuldade por alguns segundos e dormia novamente. Sempre disse do perigo de não saber ser só. Até sei, estou sendo há tanto tempo, o problema é que eu não quero.
Ah, mas você não tem vontade de ir embora? Muita. Mas mesmo se eu fosse, eu daria muitas coisas para partir nos braços do meu amor. Parece uma cena de William Shakespeare, mas eu queria que fosse real.
Tenho ficado meio que em stand by. O mundo parece correr violentamente e meu corpo acompanha, mas por dentro: pause, ou câmera muito lenta. É uma sensação estranha, como uma desconexão de corpo e mente, que está tão acelerada também que parece pifar e ficar assim.
Eu não me reconheço e ninguém vai entender por que eu me escondo o quanto posso. Não estou sabendo viver e só saberia a profundidade disso alguém que tivesse a coragem de mergulhar em mim sem coletes salva-vidas, e ninguém tem. Molhar o pé já faz não querer saltar sem garantia alguma. As pessoas precisam de garantias para saber aonde vão ou receber qualquer benefício que seja, e tudo bem. Mas talvez eu não tenha nada a oferecer e, portanto, ninguém deva realmente saltar ou mesmo molhar os pés.
Eu tenho adoração pelo silêncio desse horário em minha casa. Parece que só assim eu ouço a minha mente, que grita.
Queria nunca ter dormido com alguém para não conhecer os dedos passando pelos meus cabelos ou alisando minhas costas. Assim não sentiria falta. Dizem que não sentimos falta do que não conhecemos, e eu tenho uma memória boa demais. Dizem que o que a alma ama fica eterno. Não sei se isso é uma boa ideia.
Queria que alguém chegasse como quem estivesse viajando há anos e voltasse pra casa, e eu fosse a casa. Queria que alguém sonhasse comigo e me encontrasse na fila de um supermercado qualquer e tivesse a certeza de que era eu. Talvez seja tarde demais, talvez eu já tenha sido encontrada, talvez nunca seja.
Eu queria ser a pessoa de alguém. Alguém que não visse um chapéu no lugar de um elefante e soubesse de onde vem essa fala:
“…Não entre em nenhum avião pequeno que possa cair, e nem enfie a mão numa cavidade corporal que tenha alguma bomba dentro, ou ofereça sua vida a um homem armado. NÃO FAÇA ISSO! Não banque a heroína. Você é minha pessoa, eu preciso de você viva, você me faz valente…”
Queria ser amada como sou, com vírgulas, pontos finais, exclamações. Ser escolhida como a rosa era para o O Pequeno Príncipe.
Mas me sobraram a cama vazia e a falta de vontade de viver.
Angelina
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