sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O que importa.

Ter uma mente que nunca para e nunca se contenta com uma resposta muito simples não é fácil, porque coisa que para a maioria é só o dia correndo rio abaixo, para quem não é, um pingo vira frase, rs. Hoje eu estava vestida de uma forma, digamos, mais “formal”, simplesmente porque eu estava com um blazer, um sapato social, e fui abordada incontáveis vezes. “Parecendo uma juíza”, “parecendo uma empresária”, “parecendo uma advogada”, “como você está mais linda hoje”, “parecendo uma segurança”. Aí eu fiquei pensando como as pessoas estão ligadas ao que tem de fora. A minha roupa fez elas me olharem de uma forma completamente diferente, e isso é muito perigoso. O mundo já é superficial demais e eu tenho plena certeza de que, para eles, o mais importante é o que eu mostro, e não o que eu sou. Isso ficou rondando a minha cabeça. Somos realmente “catalogados”. Um blazer me fez ser a dona da porr% toda, como diz o linguajar deles, como se outra pessoa estivesse diante deles, sendo que eu era a mesma que estava de moletom largo. Quem não para para pensar nisso não sabe o que o planeta espera do futuro. Segui minha vida. Um passarinho, sim, mais um passarinho. Aliás, Deus se escancarou para mim três vezes hoje. Primeiro, um bebezinho, irmãozinho de uma aluna. Ele ficou no meu colo, encostou o rostinho no meu, e meu coração ficou até quente. Os meninos perguntaram se era meu “menino”, e eu vi Deus. Depois, Deus trouxe um passarinho no dedo de um aluno. Eles acham que eu “conserto” animais, eles e tudo que está em volta. Ele ficou grudado no meu dedo e eu trabalhando com ele como se fosse um periquito domesticado. Não saía, não tentava voar, e não estava machucado. Fiquei igual besta conversando com ele, com uma voz que eu costumo fazer com animais e com pessoas que eu amo demais. Arrumei uma caixinha porque estava decidida a cuidar dele, mas ele chamava demais pelos pais e eu não me achei no direito de mudar o destino dele, seja qual fosse. Ele dificilmente seria reintroduzido à natureza, teria que virar meu pet. Então fui até o pé de acerola e deixei ele lá em cima, rezando para que os pais o encontrassem. Deus havia pousado no meu dedo. Fui tirar minha sobrancelha depois dali e, assim que cheguei, vi que armaria chuva, e claro que ela caiu. Eu poderia ter chamado um Uber, mas eu quis sentir Deus mais uma vez. Aí eu pensei: do que vale esse blazer, esse sapato? O que realmente importava para mim era aquele momento corriqueiro para quem assistia, mas extremamente íntimo para mim. A chuva me molhava, as araras pareciam fazer um espetáculo no coqueiro, eu andava devagar, passos lentos, sentindo cada gota e olhando para o alto. Quando dei por mim, eu estava toda arrumada, andando lentamente na chuva, olhando para o alto e cantando. Não me apressei, não reclamei e ainda cantei. Eu gostaria muito que aqueles meninos esquecessem o blazer e o sapato bonito e vissem que o que importa mesmo são outras coisas. Deus era menininho, Deus era passarinho e Deus foi chuva fina me lavando enquanto eu cantava. Deus, quando eu me for, me leve menininho, passarinho e leve como cada gotinha que tocou minha pele. Carinho seu, sei que foi.

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