sábado, 31 de janeiro de 2026

Talvez

O que você faria se a racionalidade te abandonasse por alguns instantes e você fosse completamente emocional? Há grandes riscos e grandes conquistas. Talvez eu corresse até a sua casa, debaixo de chuva, descalça, independentemente da distância, com uma saudade irracional que nada impediria, nem passado, nem presente e muito menos futuro. Bateria em sua porta ensopada, com a blusa que você adorava. Você se surpreenderia ou me mandaria embora? Tanto faz, estamos no mundo das ideias e aqui posso o que quiser. Às vezes eu queria não ter te conhecido, talvez para não ter que esquecer, talvez para te ver novamente pela primeira vez. Você ia dizer “como você é linda” e me cheiraria o pescoço como quem arranca meu cheiro para si, beijaria minha boca e diria que minha boca é gostosa demais, porque você sempre dizia isso. Talvez eu te empurrasse para longe, talvez eu te empurrasse para a cama. Talvez você me mandasse ir embora, talvez pedisse para que eu nunca mais fosse. Talvez eu ficasse, talvez eu nunca mais aparecesse. Talvez a gente se embolasse, talvez a gente se esquecesse. Talvez eu nunca chegue, talvez você nunca venha. Ou você viria correndo em um sol de meio-dia, batesse em minha porta afobada de suor mulher, de calor mulher, de saudade mulher. Talvez eu abrisse a porta para você de novo. É que eu costumo perder as chaves quando alguém vai e nunca mais encontro. Talvez você arrombe com seu amor, talvez eu te coloque para fora. Talvez eu te abrace, pele de onça brava. Talvez eu sorria, talvez você chore. Talvez você mude, talvez eu lhe implore. Talvez você saia, talvez a porta bata, mesmo arrebentada, e se feche como um cofre que perde a senha.

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