quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Cartas

Hoje, os pensamentos de autoextermínio rondaram minha cabeça de forma violentíssima e, talvez, o corpo, como defesa, me colocou para deitar, para voltar para casa, para ficar quieta na minha cama, longe do que poderia ser um fim absolutamente trágico. Hoje eu escreveria as cartas mais tristes, mais sinceras, mais amorosas de despedida para pessoas muito específicas. Eu nunca pensei nisso, em deixar cartas e etc., mas talvez eu escrevesse aqui já, e minhas palavras poderiam confortar ou talvez dar respostas que o fim não responde a ninguém. Eu queria não ter que pagar alguém para me ouvir com atenção, com amor, com cuidado, sem que eu precisasse escolher as palavras, sem que eu fosse silenciada por um celular que desvia o olhar. Eu cuidei demais das pessoas. Claro que eu também fui cuidada, mas eu doei para além do que eu podia, e ficou um vazio imenso dentro do peito, da alma. Poucas pessoas me entendem a fundo, no mais profundo de mim, ou porque me olharam de pressa, ou porque eu tive medo. Ser vulnerável é difícil para mim, ainda que eu seja uma das pessoas mais vulneráveis e sensíveis que eu conheço. Queria voltar ao ventre de minha mãe, guardada no líquido amniótico, como quem está protegida de quase todos os males, e segura nos braços de meu pai. Vô, eu te vi hoje, eu olhei em teus olhos e chorei porque eu te reconheci, e você me disse a nossa frase-chave: “seja positiva”. Eu escreveria uma longa carta à minha avó, de amor, de agradecimento e de gratidão. Ela tem visto de perto meu sofrimento, mas, diferente de quem me vê como uma pessoa doente, como peso demais, ela me acolhe como quem diz: eu sempre vou estar aqui. Eu vejo a tristeza nos olhos deles e me sinto completamente culpada, como se não houvesse perdão. Deus, eu estou completamente perdida e eu preciso do seu colo, como quem me abraça com a maior ternura que alguém pudesse me entregar. Queria que minha mente se desligasse completamente e que meu corpo adormecesse como o de um bebê, quando os pais balançam e cantam uma musiquinha de ninar. Eu tenho um amor que não cabe em mim e não sei o que fazer com isso. Eu deixaria cartas nominais minuciosamente, porque tem coisas que só a escrita me permite, mas é que elas não conseguiriam dizer o que sinto sem que eu sentisse que faltou muito a dizer. Mas, no geral, eu gostaria de pedir perdão, de agradecer mesmo quando não merecia. Estar presa em um corpo em que a mente não faz silêncio e o espírito parece se desprender lenta e torturantemente. Hoje venci, amanhã tento de novo. Sinto sua falta como quem se perdeu na floresta e morre por lá. Talvez eu esteja meio dopada, mas é honesto o que escrevo. Angelina

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