sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Dia cinza

Chove na cidade incessantemente. Nesses dias cinzas, para quem é melancólico demais, nunca são tão bons. E quando se tem uma memória fotográfica absurda, tudo se intensifica. Deve ser como aquelas pessoas que usam ayahuasca e veem o mundo como ele é, com todas as suas nuances antes despercebidas. Passo por carros, e meus olhos acompanham cada centímetro das ruas, prédios e esquinas em que vivi algo, e parece que estou ali novamente, como se de fato voltasse, e nem sempre é tão agradável. Eu não sei direito como colocar ou recolocar pessoas nas gavetinhas que não devem ser acessadas, ou momentos. O que eu faço com isso? Consigo sentir as sensações, os cheiros, os diálogos detalhadamente, e eu não tenho respostas para nada disso, ou uma maneira de, sei lá, bloquear. Isso parece ser inato. A chuva cai e nem assim a neblina apaga coisa alguma.

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