sábado, 24 de janeiro de 2026
ANGELINA
Eu nunca tive curiosidade de conhecer a fundo as pessoas da minha família que foram deste plano antes que eu as conhecesse. Cresci querendo trocar meu nome para somente Angelina, porque parece ser o nome que me pertence. Perguntei inúmeras vezes à minha avó detalhes da minha bisavó Angelina. Sempre tive fome de saber cada detalhe dela, se era feliz ou triste, porque nas fotos em que a vi ela sempre parecia séria ou triste.
Minha avó me disse que ela tinha uma gargalhada muito gostosa. Um dia sonhei que eu era um espírito e, nesse lugar, pedia apenas para ver a minha bisavó Angelina. Alguém me disse que eu não poderia vê-la porque ela era eu. Não me esqueço de nenhum detalhe desse sonho.
Tenho um sentimento de cuidado diferente com a minha avó, filha dela. Nos parecemos bastante fisicamente, sobretudo no olhar. Minha bisavó teve doença de Chagas. Cresceu em casa de pau a pique. Ela também tinha muita dificuldade com mudanças, morava no meio do mato e foi muito difícil levá-la para tratamento. Vó Angelina morreu olhando meu pai jogar bola pela janela, no dia em que iria à primeira consulta aqui em Goiânia depois de tanta resistência. A última coisa que ela viu foi meu pai jogando bola, por quem tinha um imenso carinho e a quem se referia apenas como Serginho.
Morreu na casa onde eu cresci, e eu tive uma dificuldade gigantesca de me mudar para a chácara. Sofri mais do que eu podia imaginar. Hoje estou triste, só para variar. Minha avó entrou com uma carta para que eu lesse, pois sabe do meu encanto pelas palavras. Chorei assim que a abri e até o final, principalmente quando vi a forma como Angelina escrevia, exatamente como eu escrevo.
Minha avó disse que não era para chorar. Eu disse que era de emoção. Você quer? Claro. E guardei dentro da minha carteira a carta que outro dia eu escrevi.
Com emoção,
Angelina
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