segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Saudade , anseio e devaneios

Quem já morou no peito de alguém nunca mais encontra lugar mais confortável, mais quente, mais casa. Como se o seu lar fosse aquele lugar onde seus ouvidos parecem encontrar o coração do outro. Eu sinto falta como se tivesse nascido desse lugar, como se tivesse sido meu berço enquanto criança, minha paz enquanto adulta e meu silêncio quando não suporto a vida barulhenta. Às vezes, tenho certeza de que alguém que era para ser meu lar já passou e foi embora e que eu devo me contentar em ser só, o que seria uma pena danada. Tenho pra mim que deveríamos ser como aqueles animais que encontram seus pares e nunca mais se largam. Eu sei que é meio utópico, digo meio porque sei que isso acontece com os humanos vez ou outra. Queria ter nascido arara-azul, pinguim, sei lá, um cisne. Mas não, nasci humana e a vida não é fácil para ninguém, provas e expiações. Quem se encontra em um abraço que se encaixa feito aqueles quebra-cabeças de mil peças, mas que, quando a última encaixa, bummm, a beleza surge, sente que poderia viver ali para sempre. Eu viveria para sempre deitada no peito de alguém, no abraço, nos meus dedos longos passando pelos cabelos quando ela também deita no meu. Eu tenho uma ânsia absoluta por ter um ninho, um lar, um lugar que tenha paz mesmo quando as coisas não andam fáceis. Voltar pra casa depois de um dia exaustivo e ter o calorzinho de alguém ao seu lado, mesmo que seja no silêncio. Em um banho em que passamos um pouco de frio para viver uns minutos tão íntimos e reconfortantes. Contar que você viu um pássaro diferente ou que o carro quebrou no meio do caminho, sei lá, banalidades. Tem coisas que você só quer contar para a sua pessoa. Você aguarda ansiosamente pelo encontro para ouvir e dizer o que só vocês entenderiam. A cama é grande demais, o sofá é vazio, o banheiro não tem a menor graça e no fogão não tem amor. As pessoas dizem pra mim: uma menina bonita dessas está sozinha porque quer? Oh, como vocês estão completamente enganados. Não tenho mais idade, na verdade nunca tive, de experimentar pessoas, de rodar os bares e boates da cidade para inflar meu ego. Sou convidada toda semana para ir ao mundo. Dizem: você acha que alguém vai cair em cima da sua cama? Rss, eu gostaria muito que sim, viu? Sei que não, que é impossível. Mas esbarre em mim, sei lá, me olhe e me encontre. Me mostra onde você está, para onde devo ir para encontrar você, porque eu te quero assim como uma mãe quer um filho, o sol quer beijar o mar, assim como a calmaria de uma onda, quente como um vulcão, bonito e mágico como uma aurora boreal. Que seja proibido dormir em camas separadas e que a gente se abrace mesmo estando chateada. Que a gente converse sobre os astros, nossas dores, nossos anseios, que possamos sonhar juntas e livres como pássaros que, mesmo podendo voar, escolhem ficar. Eu quero ficar. Fica também? Não tenha medo, a gente precisa ir com medo mesmo. O mundo também pode nos surpreender com coisas boas, quem vai saber? Atravessa a rua, se joga sem saber se a porra do paraquedas vai abrir. Eu tiro meu colete pra te abraçar melhor, só não atire no meio do meu peito. Está chovendo e o travesseiro é a pior companhia. Não tem coração, não tem calor, não tem cheiro, não tem mãos, não tem boca, não tem cabelos, não tem você, que eu sei lá quem seja ou talvez saiba. Eu tô com saudade de você. Venha depressa como um maratonista que precisa chegar em primeiro lugar. Não vou te entregar uma medalha bonita, mas prometo entregar meu coração na palma da sua mão pequena. Angelina

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