terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Voz baixa

Às vezes nós pecamos por amar em voz baixa. Para nós, mulheres que amamos mulheres, foi nos ensinado que precisávamos amar baixinho, chamar a namorada de amiga ou, quando se casavam, dizer que só dividiam apartamento ou moravam juntas para dividir despesas. Eu sinto muito por não ter arrebentado o sistema, por não ter andado de mãos dadas onde quer que fosse, por não ter beijado quando desse vontade, mesmo que estivéssemos no meio de uma multidão. Nós também tínhamos e temos o direito de nos amarmos em voz altíssima. Quantas vezes eu me contive para não chamar de amor, para não dizer “EU TE AMO”, assim mesmo, em maiúsculas, porque achava que o amor precisava ser baixinho, dito em entrelinhas, guardado em quatro paredes. Eu chamei isso de “minha linguagem de amor é atos de serviço”. Também é, mas não é só. Muitas vezes era porque poderíamos sofrer algum tipo de violência ou porque apenas fomos condicionadas a isso. Para uma pessoa tão “emocionada”, palavra que acabou arruinando quem é romântico, amoroso, cuidadoso e prestativo, amar em silêncio é muito difícil. É como engolir um comprimido enorme sem água e ele parar onde não devia. Engolir o amor é um grande risco. Ele nasceu para ser desaforado, grande, nasceu para ocupar espaço, revolucionar, ser resistência em um mundo tão superficial. Acho que por isso eu escrevia cartas, porque não saía pela boca, mas precisava ser gritado em algum lugar.

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