terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Não sei de muita coisa

Tomei as medicações há tanto tempo que meus olhos parecem duas jabuticabas, não tão pretas assim, mas úmidas, vivas. Cai uma chuva fina lá fora. O som da água escorrendo do céu e tocando a terra me acalma, e o cheiro que sobe depois me abraça ainda mais. Minha mente, porém, não conhece descanso. Posso passar horas, até dias em silêncio, mas dentro de mim nada se aquieta. Minha avó me chama todos os dias para destrancar a faculdade. Ela sempre acreditou mais em mim do que eu mesma. Às vezes penso que, por trás da depressão e da ansiedade, exista algo escondido, um outro lado de mim. A facilidade com que faço certas coisas, o pouco esforço, me fazem acreditar que qualquer um poderia fazê-las. Como se nada bastasse. Como se eu não merecesse, por ter sido simples demais. Hoje, enquanto me forçava a exercitar o corpo, pensei: olha só, estou fazendo isso só por mim. E não lembro a última vez que fiz algo assim. O clima mais ameno me acalma, mas também desperta uma melancolia intensa, abre gavetas antigas da memória. Li sobre um trem noturno na Noruega que leva os passageiros não apenas para ver, mas para se perder, delirar, se render ao sublime da aurora boreal. Sempre sonhei em vê-la lá. Por quê? Não sei. Não sei tantas coisas. O remédio começou a fazer efeito. O resto fica para depois. Sonhei com você também. No sonho, só eu sabia como te alcançar, como te ajudar, porque só eu te conhecia daquele jeito que talvez ninguém conheça. Ou talvez ninguém me conheça assim. Eu realmente não sei. Não sei de muita coisa.

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