quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Dona tristeza

Poxa vida, eu odeio quando a tristeza não só bate na porta, mas arromba, entra sem pedir licença, senta, pede um café, joga os pés sujos no meu sofá e ainda insiste em conversar sobre coisas que eu não tenho a menor vontade de enfrentar. Ela não respeita nada, fala como se fosse dona da casa, não liga se sujou tudo ou largou a xícara em qualquer canto. Ela simplesmente vai embora e me deixa com o estrago, com o peso, com o vazio. Ah, não existe remédio para meus olhos tristes. Quem tem sensibilidade percebe na hora, porque a tristeza adora se instalar e fazer questão de aparecer. Hoje eu saí para buscar uns materiais para a escola e parecia que eu estava no automático. Fui e voltei em silêncio, fiz o que precisava, mas a cabeça doía como se gritasse por dentro. Me escondi debaixo de uma mesa, tomei um remédio forte para dor e desmaiei. Acordei com a sensação de que um caminhão tinha passado por cima de mim várias vezes, sem pressa, só para ter certeza de que eu sentiria cada impacto. Os meninos gritam sem parar, fim de ano, energia sobrando, nada para fazer além de brincar. Mas para mim é barulho demais, é barulho que atravessa. Minha colega, que já é mãe de dois adultos, disse que ainda bem que os filhos dela já cresceram, porque hoje ela não daria conta de tanto barulho. E eu fiquei ali, presa no meu pensamento: como eu poderia ter um filho se eu preciso tanto de silêncio para sobreviver? Fiquei ainda mais triste. E eu nem sabia que ainda cabia. Minha avó entrou toda animada no meu quarto para contar que na pamonharia tinha um casal de homens com um menininho, os três tão lindos juntos, tão pacientes, tão leves. E aquilo me atravessou também, de outro jeito, porque tocou num desejo e num medo ao mesmo tempo. Fim. Não tenho mais o que dizer. " Há quem passe por um bosque e só veja lenha para uma fogueira" Leon Tolstói

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