Quando eu era criança, nem sabia, mas já tinha um modo de me acalmar. Além de precisar sempre de cobertores pesados e ficar passando os pés na cama até adormecer , eu amava deitar e passar horas olhando o céu — principalmente enquanto ainda era dia, e as nuvens branquinhas como algodão se movimentavam vagarosamente. Ali, eu enxergava animais, objetos gigantes e uma porção de coisas que, para mim, pareciam tão claras. Como alguém podia olhar aquele céu e não ver tudo aquilo? Era tão óbvio!
Cresci com esse fascínio pelo céu, por tudo que há nele — do que é visível a olho nu ao que não é. Sempre fui uma entusiasta dos corpos celestes, principalmente das estrelas e dos planetas. Depois da Terra, acho Saturno de uma beleza estarrecedora. Acho a Lua extraordinária em todas as suas fases. E o que é o nascer e o pôr do sol, senão uma poesia escrita pelas próprias mãos de Deus? É divino demais. É na natureza que eu vejo Deus com os meus próprios olhos. E quando o sol se encontra com o mar… aquele calorzinho… é como se eu fosse transmutada para um lugar onde não existem espaço ou tempo. Sempre fecho os olhos e me sinto flutuando.
Hoje, enquanto os carros passavam e o barulho tomava conta da rua, por um momento eu senti o calorzinho do sol se despedindo de forma majestosa e, ao mesmo tempo, singela — invadindo a minha carne falha e tocando o meu espírito cansado. Voltei meus olhos miúdos para o céu, e lá estavam as nuvens. Eu era uma criança de novo, olhando elas se movimentarem, e me lembrei de quanto já quis morar lá. Eu achava que morrer era poder deitar nas nuvens e ver tudo que havia por lá de perto.
Fiquei estática. Não ouvi mais nada. Só existiam o calor do sol, as nuvens, os passarinhos de todos os tamanhos, e as araras — que vejo todos os dias, em lugares diferentes, mas todos os dias, sem falta, até mesmo mais de uma vez por dia, e em mais de um lugar. Sempre em pares, como nasceram para ser. E eu… querendo morar lá, como a minha criança imaginava que seria.
Disse ao meu pai que gostaria de pegar minhas coisas e morar de frente para o mar, na casa mais simples que tivesse. Eu sei exatamente onde seria. Ele me respondeu que nascemos para sermos sociáveis. Eu sei, pai. Eu sei. Mas confesso que, em vários momentos do meu dia, eu penso simplesmente em pôr fim a tudo, de todas as maneiras que você e ninguém mais poderiam imaginar. Mas penso em vocês… e continuo o dia.
Às vezes, penso em pegar o que tenho e sumir, como se eu fosse apagada do mundo. Sei que muitas pessoas já fizeram isso. Apenas desapareceram. Muitos veem isso como fraqueza. Eu vejo como: “Aguentei até aqui, e é isso.”
Continuo me despedindo de muita coisa. Esvaziando-me para ficar… ou para ir. Tanto faz. O fato é que estarei como a criança que olhava as nuvens e via, principalmente, animais se formando. É preciso voltar a ver o mundo com os olhos doces daquela criança — sempre atenta, sempre agradecida. É preciso voltar a ser criança para, um dia, voltar para casa. E eu adoraria que essa casa fosse em uma nuvem, e que os raios do sol atravessassem a minha alma como nunca puderam antes.
O mundo não me atrai. Não adianta. As festas, a multidão, as conversas rasas, o etílico, a fumaça entrando nos pulmões, a casualidade… não são pra mim. Já tentei. E falhei miseravelmente. Não me acho especial por isso. Mas é quem eu sou. Eu gosto de outras coisas, daquelas que a maioria das pessoas não liga ou não acha interessantes. E eu não estou sabendo viver no meio dessas pessoas, desse mundo.
Não acho que seja só depressão ou TAG. É uma sensibilidade exacerbada, que dificulta viver nesse mundo raso, rotativo, líquido e casual. Sei bem que houveram acontecimentos que me modificaram em vários aspectos. Antes, eu saltava para ver se no caminho haveria um paraquedas. Mergulhava para, só depois, perceber que era raso demais e que eu quebraria o pescoço. Mas é a vida acontecendo.
Não quero competir por nada, com ninguém. Estou tentando arrancar as raízes do que não é bom em mim. Sempre me cobrei perfeição e já entendi, há muito tempo, que nunca vou alcançá-la. Mas quero voltar a ser a criança. Porque eu quero voltar para casa sendo a melhor versão de mim mesma.
Angelina
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