quarta-feira, 21 de maio de 2025

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Escuto, vez ou outra: “Como você é forte!” Pessoas que me conhecem há alguns anos, que veem a batalha de perto. Mas vocês estão errados, muito errados. O que me mantém aqui não tem nada a ver com força — e sim com fraqueza. A fraqueza me mantém, não a força.


Eu tenho muito medo. E não é medo de para onde eu vou ou do que vai acontecer comigo depois. É medo de fazer os outros sofrerem, e eu sei que isso seria inevitável para os poucos que me amam de verdade. São poucos, mas eles existem — e são minha família, que por alguma razão Deus me deu o enorme prazer de ter.


Eu estou cansada demais, e com pensamentos ruins demais. Eles já estiveram comigo outras vezes, me esforço para pensar e fazer planos para um possível futuro , mas dessa vez parece diferente, com uma potência asfixiante. Quando eu era mais jovem, sempre tive a sensação de que meu tempo por aqui seria curto — e era só uma sensação, porque esses pensamentos ainda não faziam parte de mim.


Hoje eu me sinto em um labirinto, em que não vejo sequer uma saída. E isso é desesperador. Não sei se foi a febre, o desespero ou tudo misturado que me fizeram pensar em coisas que eu nunca havia pensado com tantos detalhes. Mas eu pensei. E caí no sono com febre, imaginando detalhes mínimos, enquanto alguma doença me nocauteava na cama — onde cada pedaço do meu corpo dói, mas ainda assim não chegava nem perto do que dói por dentro. Não há dipirona que alivie.


E eu penso que não tenho ninguém para conversar sobre isso, porque aprendi que existem pessoas que vão te ouvir com muita atenção só para depois jogarem contra você aquilo que um dia você sentiu conforto em contar, em se abrir, em se derramar ou que vão ouvir e diminuir toda sua dor, amassar como uma lata de sardinha e dizer que é só se esforçar que consigo, se eu não me esforçasse nem da cama me levantava. Eu sempre tive dificuldade de mexer em algumas caixas que deveriam ser lacradas e jogadas no fundo do oceano. Mas quando pessoas falam o que não sabem — mas acham que sabem demais — a gente acaba tentando explicar que não é assim. E não vale a pena. Não! Minha dor não é maior do que a de ninguém, mas é a que eu sinto e sobre ela ninguém mais poderia falar.


Também entendi que, se querem fazer de você um vilão, os deixem fazer. Quem te ama e vive de fato com você sabe quem você é. E, na real, quando você não estiver mais aqui, isso só vai ser importante para eles — para as pessoas que conheceram de verdade o seu coração e toda a sua história. Não ter que provar mais nada para ninguém me liberta, porque eu não quero ficar presa aqui.


E eu não estou culpando ninguém por nada, não sou vítima . Não quero que ninguém sinta culpa de nada. Porque, mesmo que tenham acontecido coisas que me mudaram, que me apagaram, que trouxeram essa tristeza que pesa nos olhos… Eu tenho consciência de que, em muitas delas, eu tive escolhas. E eu as fiz. É claro que aconteceram coisas sobre as quais eu não tive controle — mas, ok, era a vida acontecendo, como acontece com todo mundo.


O que me amarga a boca e comprime o peito são as vezes em que eu fui falha com as pessoas. Eu sei que pedi perdão, mas nem todo mundo está aberto a aceitá-lo — e não há nada a se fazer. Eu me culpo e me martirizo como se tivesse cometido um crime e enterrado um corpo no jardim.Já escrevi sobre isso antes, mas preciso me esvaziar. É absurdo demais a facilidade que tenho de perdoar os outros e o quanto sou implacável comigo mesma quando erro.


Lembro do texto de Chico Xavier que diz: “Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor… Magoar alguém é terrível.” E é terrível mesmo. “Ah, mas a pessoa merecia.” “Ah, mas você se defendeu.” Não interessa. Eu agi da mesma forma — e isso é frustrante demais. Eu sei que não vou me perdoar, porque já passou dos limites que eu mesma havia imposto. Mas eu sei que tenho tentado demais… e, obviamente, cansado na mesma proporção.


Sabe quando alguém amarra uma venda nos seus olhos, te gira feito um peão e depois tira a venda e diz pra você seguir? Eu me sinto assim: completamente desnorteada. O mundo não me cabe mais. E isso… é uma pena. Ou talvez, uma libertação. Quem vai saber?


Me sinto encurralada.

Uma mudança nesse momento não poderia ter sido pior. Às vezes, eu acho que sou neurodivergente… ou só sensível demais, ou fraca demais, ou talvez já tenha desistido mesmo. Tudo está doendo e chacoalhando a minha cabeça. Ao menos a pessoa que decidiu isso está feliz, e eu estou aqui, segurando na ponta do precipício, balançando com uma ventania forte — como aquelas pessoas que fazem escaladas, mas sem nenhum EPI.


Tenho a sensação de que essas caixas não serão abertas por mim. Tive essa sensação enquanto embalava tudo. As araras ainda taramelam no novo lugar. Sexta, três pares “dançaram” na minha frente. Antes, o som delas me acalmava. Hoje, me traz uma angústia inenarrável — e eu não sei por quê.


Tenho pensado menos nas pessoas, e isso, pra mim, é um grande alerta, porque pensar nas pessoas sempre foi o que me manteve aqui. Eu sei que é humano cometer erros. Eu errei, mas também erraram comigo — e eu perdoei. Mesmo que algumas dessas pessoas nunca tenham me pedido perdão ou desculpas, fiquei até agora buscando um jeito de que me perdoassem.


Mas, se isso não aconteceu, é porque talvez elas não sentiram que precisavam fazer isso… ou que eu merecesse. Então, preciso esquecer. Eu nunca quis machucar alguém com intenção — e disso eu tenho certeza. E não dá pra sair arrastando isso pelo caminho, pra onde quer que eu vá.


(Nesse exato momento, uma arara passa sobre a minha cabeça.)


Ouvi dizer que, quando a gente perde a vontade de viver, é porque um pedaço da alma ficou com alguém, ou em algum lugar (ou momento), e que um xamã poderia ajudar com isso. Será que é verdade? Embora eu nem consiga pensar em um pedaço da minha alma em algum lugar… Na real, sinto como se a minha alma tivesse abandonado meu corpo. E isso é assustador.


Meu peito dói — como se meu coração fosse explodir. E não é de forma figurada, é literal. Eu gostaria que Deus me abraçasse e dissesse que era hora de ir, porque eu já estou pronta pra isso há muito tempo.Eu preciso que isso acabe! Não tenho nada a perder , nada me pertence.


Tem um ponto que não para de ser “cantado” na minha cabeça:


“Caboclo roxo da cor morena,

ele é Oxóssi caçador lá na Jurema,

ele jurou e tornou a jurar

que ouviu os conselhos que a Jurema lhe dá.”


Enfim… é só um desabafo. Porque, se eu não colocar isso pra fora — que seja escrevendo — o peito vai explodir.Eu preciso vomitar a minha tristeza e aqui não respinga em ninguém .                                 Quando tudo silenciar, quem ainda chamará teu nome com doçura? - Angelina

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