terça-feira, 25 de fevereiro de 2025
Uns versos
Chove muito por aqui. O trânsito está lento. Escrevo para tentar enganar a angústia que o trânsito me causa, principalmente depois do acidente que quase custou minha vida.
Uma música da Adriana Calcanhotto, que eu não ouvia há alguns anos, toca em minha mente acelerada: Uns Versos. Música linda, que parece tocar até os ossos:
"Eu sou pelo avesso sua pele,
O seu casaco
Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Eu chovo
Sobre o seu cabelo, pelo seu itinerário
Sou eu o seu paradeiro
Em uns versos que eu escrevo
Depois rasgo
E depois rasgo."
Quantos versos eu já rasguei, apaguei, não entreguei ao destinatário... Mas acredito que tudo o que se escreve fica por aí, pairando sobre o universo como moléculas e que, uma hora ou outra, elas encontram um corpo celeste ou humano e se transformam pela eternidade (espero que em algo bom, bonito e feliz).
A chuva não cessa. Tenho alguns sentidos bem aguçados, e a audição é um deles. Pareço ouvir cada gota caindo sobre as árvores. Alguns pássaros cantam, outros parecem chorar. Em minha casa, o silêncio absoluto de sempre. Dentro de mim, tudo grita—mas só dentro. Fora, há apenas o silêncio da tristeza cortante e do cansaço, que já não sustenta nem meu corpo em pé, pois fez esse esforço o dia inteiro.
Queria ser um verso bonito solto no espaço, livre de um corpo cansado e de uma mente tão barulhenta. Uma poeira estelar.
Angelina Dias
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