domingo, 23 de fevereiro de 2025
Eu não moro mais em mim
Não vejo minha avó com tanta frequência, pois estou morando na minha casa, e não é tão perto. Eu abandonei qualquer compromisso que tivesse para dormir com ela desde o dia em que meu avô foi internado. Ele não voltou, então continuei sem falhar . Não podia deixá-la sozinha, e foram anos assim. Na pandemia, eu dormia de máscara, mesmo sem sair e sem dormir no mesmo quarto que ela, até que algo revirou minha vida de cabeça para baixo, como se eu fosse sacudida, rodasse por horas e depois tirassem a venda para que eu seguisse — como naquelas brincadeiras em que a gente não sabe o que fazer porque os sentidos ficam bagunçados.
Então fui morar com ela de verdade. Não só dormia lá, mas minhas coisas estavam lá. Só que eu fui ficando novamente cada dia pior, e eu não podia mais deixá-la me ver diariamente daquela maneira. Eu chorava agachada no banheiro, sem emitir um som sequer enquanto tomava banho, para que ela não ouvisse. Mas, obviamente, ela começou a se preocupar, pois fui parando de comer, de conversar, e só queria ficar na cama. Para que ela não visse aquilo todos os dias, arrumei minhas coisas e voltei para minha casa. Eu não podia conviver com ela me vendo daquela forma!
Hoje, ela veio almoçar aqui na chácara e, enquanto comíamos, disse: "Fiquei muito triste com você na sexta." Pensei: "Meu Deus, será que fiz alguma feiúra com minha vó?" Logo perguntei o motivo e, para minha surpresa, ela disse: "Uma tristeza profunda... parecia que você não estava dentro de você."
Eu não soube o que responder a ela, mas fiquei pensando como, em alguns minutos comigo, ela pôde ver exatamente como me sinto. "Você parecia não estar dentro de você." Infelizmente, ela estava certa, e eu não soube responder nada. Fiquei em silêncio, com a frase rodopiando na minha cabeça.
Não era para ser assim, vó. Não foi assim que eu imaginei!
Angelina
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