segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Passarinho na gaiola
Perdi o sono. Isso acontece com muita frequência aos domingos ou aos feriados em que tenho que voltar a trabalhar. Talvez eu esteja com burnout ou, com toda certeza, sim! Mas não é sobre isso que preciso vomitar através das palavras. Não tenho com quem conversar e, nessas horas, esse bloco de notas é o que me salva (mesmo que muitas vezes eu escreva e apague). Há coisas que não podem nem ser lidas duas vezes. Elas só precisam ser expulsas, como quem sente até o limite e, depois, silêncio!
Acho que nunca mais vou ser como eu era. Digo, na essência, na alegria que tomava conta de todo espaço em que eu pisava. Fui morrendo aos poucos, como aquelas plantas que a gente acha que não precisa regar com muita frequência, mas que, uma hora, murcham e depois morrem. Toda vida precisa ser alimentada de alguma forma!
Fui murchando de pouquinho em pouquinho ao longo dos anos, até que despetalei. Fui perdendo a mim mesma!
A vida não para para a gente se encolher em posição fetal e chorar por sei lá quantos dias! Parece que vivo uma música que diz: “Todo dia ela faz tudo sempre igual”. Os meus dias, minhas semanas e meus meses foram iguais, e a maior parte do tempo foi trabalhando ou fugindo na minha cama, dormindo o sono infinito. Dei para dormir para ficar sonhando. Meus sonhos são muito vívidos, e eu não quero acordar. É engraçado porque, quando acordo, tenho a sensação de que meu espírito demora um pouquinho para voltar para o corpo. Aí fico meio zonza e com uma vontade imensa de voltar para onde eu estava, mas a roda-gigante não para!
Existem coisas que sinto que ninguém sabe. Nem tudo tem alguém para te ouvir do outro lado sem te meter o dedo na cara e dizer o quanto você é tonta, para não dizer uma palavra bem baixa que eu mereceria ouvir!
Escrevi uma carta imensa ontem, com destinatário, mas apaguei. A sanidade ainda existe em mim, mesmo que meio vacilante! Aprendi a guardar para mim o que é íntimo demais. Pode ser que eu me arrependa por não deixar o outro saber, porque o amanhã não existe para ninguém, e o arrependimento pode arrebentar sua porta sem piedade!
Meu pai, outro dia, fiquei sabendo, falava de como eu era cheia de vida, brincalhona, e de como queria que eu voltasse a ser assim. Eu também queria, pai, mas acho que a gente não volta mais depois que cai da ponte, ou volta muito quebrado. E há coisas que não se colam novamente, o que é uma grande pena!
Outro dia, me disseram que eu só sorrio por fora. Meus olhos pequenos sempre me entregam. Sou questionada quase que diariamente sobre por que não sorrio, ou ouço dizerem: “Seu sorriso é lindo, deveria sorrir mais vezes”. Mas eu não consigo. Algo em mim morreu, e eu não sei te dizer nem o que foi, nem quando isso aconteceu. Talvez não tenha sido em um dia específico. Foi aos poucos, como se meu coração, minha mente e meu espírito estivessem em um estado paliativo, que pode durar uma semana, um mês ou muitos anos. E eu não sei dizer se isso é bom ou ruim. Perder o apreço pela vida é algo que ninguém deveria experimentar!
Eu me lembro de que, pouco antes de meu avô falecer, ele foi mudando. Ficava mais quieto, e ele era tão engraçado! Passou a não se sentar à mesa nos almoços sagrados de domingo. Parecia que sentia que algo mudaria e tentou fazer com que a gente se acostumasse com seu silêncio e sua ausência à mesa, mas isso nunca aconteceu, ao menos não para mim!
Recordo-me disso porque, no fundo, tenho feito o mesmo: tentado fazer com que minha ausência seja aceita como algo habitual. Mas isso é ilusão, assim como a cadeira vazia do meu avô! A vida vai continuar, mas nunca mais será a mesma!
Ter que se policiar para viver é exaustivo. A gente geralmente se protege para viver, e não o contrário. Nosso instinto foi feito para a sobrevivência. Pareço aqueles passarinhos presos na gaiola, que cantam não porque estão felizes, mas porque estão tristes. Eles sabem que o céu existe, que foram feitos para voar, mas estão presos e não podem fazer o que nasceram para fazer: bater suas asas com a liberdade que corre em seus corpinhos quase sempre miúdos e lindos. Foram feitos para voar e nunca o farão!
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