domingo, 13 de setembro de 2026

Esquecer de mim

Caiu no chão aos prantos. Vi de longe e corri. Sei o que é isso. “Levanta do chão, vem comigo…” Eu, carregando meu corpo cansado e o dele, de um rapaz alto, magro e de um coração grandão. Sento com ele e deixo ele desaguar. Chorava, se espremia, soluçava, puxava a camiseta na altura do peito, como quem põe para fora tudo aquilo que o afogava. E ele repetia sem parar: “Estou segurando há muito tempo.” Ele estava sofrendo de amor, ou do que ele acha que é amor. Parece-me que o amor só está fazendo morada nele. “Tudo o que eu faço é insuficiente.” Eu queria dizer para ele ir embora, mas não posso. Só ele poderia entender. “Eu levo ela em casa. Eu moro aqui do lado. Levo ela longe, em casa, e volto a pé. Pego florzinha para ela na rua.” Essa parte me pegou. Escrevo cartas à mão. “Tento mudar tudo em mim que incomoda ela.” Tive vontade de dizer novamente que ele fosse embora. “Você gosta dela?” “Eu a amo!” “E ela gosta de você?” Ele responde bem baixinho que sim. Nem ele acredita nisso. Pensei… a vida vai ser mais difícil para esse rapazinho. Mas eu diria a ele para não mudar o jeito dele, apenas para se atentar a quem deixa entrar e fazer morada. Um dia, li um trecho de Caio Fernando Abreu em que ele dizia: “Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim.” Por alguns longos minutos, ele fez com que eu esquecesse de mim.

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