sábado, 11 de julho de 2026
Eu voltaria
Eu voltaria para o meu quarto pequeno, com uma cama de solteiro, uma cômoda pequena e um guarda-roupa minúsculo, onde mal cabiam as minhas roupas. Mas minha irmã estava no quarto ao lado e, mesmo que eu tivesse pânico do escuro naquela época, eu voltaria.
Eu voltaria a acordar às 5 horas da manhã para ir à faculdade a pé. Chegava satisfeita e voltava debaixo de um sol de exato meio-dia. Trabalhava até Deus sabe que horas, cuidando de cinco bebês ao mesmo tempo. Às vezes, eu quase dormia sentada, mas eu voltaria, porque existia paz no meu coração e muitos sonhos. Não sonhos mirabolantes, mas sonhos.
Eu voltaria para o meu celular lotado de SMS dos meus amigos e à disposição de estar com eles, muitas vezes sem um centavo no bolso, mas com eles.
Eu voltaria a não ter nada além do meu quarto pequeno, mas ter o meu avô me amando em voz altíssima, com aqueles olhos doces, e todo mundo ao meu redor mais feliz.
Eu voltaria achando que esbarraria em alguém, como nesses filmes e livros de romance, e seríamos “felizes para sempre”.
Eu voltaria porque eu era eu, com disposição, sonhos, vontades, prazeres, sorriso fácil e uma habilidade invejável de fazer todo mundo rir. Eu era a garota mais engraçada da turma. Sei que é dificílimo acreditar. Às vezes, até eu tenho dificuldade, mas eu era.
Poucas pessoas sabem, mas eu sempre fui apaixonada por tênis. Eu só podia ter um par. Pode parecer bobo para quem me lê, mas eu trocaria todos os pares que tenho hoje para ter aquele novamente, mas ser feliz.
A vida sem felicidade, sonhos e prazeres é indigesta, intragável, i.m.p.o.s.s.í.v.e.l.
Eu voltaria a ir para a escola de Biz, debaixo de chuva, mas com o meu pai e com incontáveis amigos que me faziam arrebatadoramente feliz.
Eu voltaria para o ensino fundamental, para ter a minha mãe por perto o tempo todo, porque ela trabalhava na limpeza da escola e eu tinha muito orgulho dela. Eu praticava incontáveis esportes e estudava no bairro onde morava. Consequentemente, vivia com os meus amigos. Íamos e voltávamos juntos, a pé, chupando a laranjinha da tia, que custava cinquenta centavos, ou com os bolsos cheios de balinhas de dez centavos.
Eu voltaria a passar todas as minhas férias com os meus avós, com a minha avó fazendo as melhores comidas do mundo e nos mandando encontrar os chinelos para tomar banho, que estavam em algum lugar da chácara, mas nunca em nossos pés.
Eu voltaria e impediria aquele dia que pode ter quebrado a minha criança para sempre.
Eu voltaria a achar que poderia ser alguém na vida.
Voltaria e prometeria não repetir padrões e não ser absurdamente dura comigo.
Eu voltaria e contaria que nem todas as pessoas me queriam bem genuinamente.
Voltaria e contaria que éramos infinitamente mais felizes naquela casa humilde, onde todo dia 15 era o dia de fazer a compra do mês. Sem um pingo de luxo, mas era também o dia de comer uma pizza ou um sanduíche. O único do mês. Esperávamos ansiosamente por isso.
Eu voltaria e imploraria para a minha irmã mais velha ter ficado.
Eu voltaria e entenderia que eu podia, sim, errar e que todo mundo faz isso. Geralmente, é assim que se aprendem as grandes lições.
Eu voltaria ao ventre da minha mãe para nunca ter pisado aqui, sabendo que hoje jamais poderei voltar a qualquer um desses tempos e momentos.
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