domingo, 17 de maio de 2026
Destinado
Tudo o que está destinado a você vem ao seu encontro de uma forma ou de outra. Acho que todo mundo deseja ou acredita nisso. Eu já acreditei, na minha mente pueril de quem achava que o mundo era bonito demais e que tudo era destinado e tinha propósitos, até entender que isso é mais uma utopia, uma frase clichê para que viver se torne menos pesado e para que suas esperanças se mantenham vivas. Dizem que sem esperança e sonhos não dá para viver, talvez você sobreviva até onde conseguir sem eles.
Uma pessoa me disse que, em uma pessoa ferida, até carinho doía, e ela tinha mesmo razão. Andamos por aí em fraturas expostas e uma simples esbarrada arranca a casca do machucado e começa a sangrar como se tivesse acabado de acontecer. Isso acontece comigo e com você que me lê também. Até o carinho dói e a gente parou de confiar nas pessoas. Isso é, claro, muito protetor, mas também é perigoso. Como viver sem confiar? Você precisa acreditar que o ônibus vai parar enquanto atravessa a faixa de pedestres.
O professor mostrou uma imagem de um homem parado em um labirinto e, na frente, havia uma luz. Ele perguntou quem seguiria em frente e eu soltei instantaneamente que seguiria. Ele então, que sempre se acha entendedor de tudo, disse: “Como a religião tem poder sobre as pessoas”. Sugeriu que eu seguiria porque acreditava que fosse uma luz divina. Retruquei: “O senhor está enganado, eu seguiria porque quero ver o que tem do outro lado”. Ele disse: “E se for um caminhão passando?”. E eu respondi: “E se não for?”. Ele novamente me questionou: “Você seguiria mesmo assim?”. Eu disse que pagaria o preço para ver o que tem do outro lado.
E isso é sobre a vida. A gente precisa pagar o preço o tempo todo, seja de parar ou de seguir. Para tudo há um preço e uma escolha sempre deixa algo para trás. O foda é saber se fez a escolha certa. Quando você não tem muita esperança em nada, quando vive no automático, seguir até o final do corredor, onde não se sabe o que pode haver, faz você questionar o instinto de proteção, que é absolutamente operante em nós, e entender que, se houver um caminhão, para você tanto faz. Alerta vermelho: há algo muito errado por aqui.
Eu tenho feito pouco, mas é o que consigo, e isso pode soar como “você soltou as minhas mãos”, “não se importa”, “é dura demais”. Quem me dera ser dura demais. Eu sou comigo. Só não estou conseguindo ser para o outro o que ele merece ou precisa que eu seja, porque eu não estou sabendo nem quem eu sou ou o que fazer com isso, de uma forma muito solitária. Até o carinho dói. Sabe quando a tartaruga se encolhe no casco? Me sinto dessa maneira. Tenho medo do outro me tocar, seja literalmente ou não. Às vezes dá certo se esconder, às vezes alguém cutuca o casco para ver se ainda existe vida por baixo dele.
Espero ansiosamente pela sexta-feira e quero que a semana não exista para que eu não precise sair da cama, ser produtiva e ser bombardeada de estímulos, gritos, barulhos constantes, meu nome sendo chamado incontáveis vezes, a ponto de eu querer mudá-lo. Meu corpo tem pifado. Hoje eu dormi até às 10 horas da manhã e eu não sei dizer a última vez em que fiz isso. Ele está cansado demais. A mente tem feito isso com ele. Agora, a mente cansada está presa em um corpo exausto. Pensei: eu devo merecer isso, e não sei se haverá misericórdia. Não quero levantar amanhã. Eu precisaria dormir por alguns dias seguidos sem a obrigação de nada.
Queria não me ser. Ser uma estrela qualquer, uma samambaia, um planeta, um polvo, uma molécula qualquer, um pingo d’água. Sentar no “meio do mar”, rodeada de conchas, sem tempo para me levantar, sem pensar em nada, quase como não existir, e o nascer e o pôr do sol tocarem meu corpo lentamente, sem pressa, como se eu nunca mais precisasse me levantar daquele lugar, com os olhos fechados, como um polvo que sente com seus tentáculos sensíveis. Eu queria ser invisível e não precisar ser ninguém.
Às vezes eu tenho vontade de vender as poucas coisas que tenho, pegar uma mala e simplesmente sumir para um lugar onde ninguém me conheça ou saiba qualquer coisa sobre mim. Um lugar em que o silêncio só seja quebrado pelos animais e pela água batendo nas pedras ou na areia. Sem barulho, sem pressa, sem precisar ser proativa ou dizer que está tudo bem enquanto dói até para respirar.
Acho que, se as pessoas pudessem me ler, não compreenderiam. Me achariam lunática. “Enlouqueceu-se de vez.” E talvez seja isso mesmo. O mundo parece não me caber mais, e não é porque eu sou especial. Já ouviu falar que o conhecimento também pode ser prisão? Ter consciência talvez também seja. O mundo não é bonito, e fomos nós que fizemos isso com ele.
Só está vivendo de fato quem não liga para porra nenhuma. Quando alguém me diz que não sente angústia diante do mundo, eu sei que não quero essa pessoa perto de mim.
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