quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Possibilidade
Tem palavra mais brasileira do que saudade?
Eu sinto falta de você olhando bem dentro dos meus olhos. Você me olhava de um jeito tão bonito, como quem toca a minha retina com a sua, e isso é daquelas coisas que ficam marcadas para sempre. A sua pele parecia feita para encostar na minha, uma pele que eletriza, sabe? Um colo de calmaria, feito pôr do sol, que é a minha cor favorita na vida. Qual é a sua cor favorita? A cor do sol se despedindo do dia.
A sua mão pequenininha parecia ainda menor dentro da minha, e eu me lembro de você ficando brava quando eu dizia que você era baixinha, algo que eu achava lindo. Sinto falta de ouvir você repetir o tempo todo que estava com fome e me lembrar de que eu precisava me alimentar. Você dizia que eu era muito marrenta, mas isso sempre foi só uma armadura. Por dentro, sou sensível a ponto de doer o coração.
Você achava que eu não gostava de você porque precisava ouvir tudo em palavras e não percebia os pequenos atos de cuidado que eu fazia. Se tivesse prestado só um pouco mais de atenção, eu não teria ido embora. Aprendi a partir quando não caibo mais, quando pareço insuficiente. Dói muito ir embora, mas eu vou, porque todo mundo merece ser amado do jeito que acredita ser certo.
Eu não teria conseguido te fazer feliz. Você pensava que eu dava abertura ou conversa para outras pessoas, enquanto eu dormia e acordava pensando em você e, acredite, não conversava com ninguém. Você era a minha possibilidade, mas eu confesso que sou muito cautelosa por motivos óbvios, e você interpretava isso como frieza, quando na verdade era apenas o meu modo de proteção ativado.
Não sei se seríamos felizes no meio do caos, mas eu queria tanto que fôssemos. Sou filha de Nanã e tenho uma dificuldade enorme em desapegar, e talvez por isso eu seja assim, cuidadosa demais. Eu queria ser alguém que atravessa a faixa de pedestres com a certeza de que o ônibus vai parar, mas carrego um medo enorme de ser atropelada, e tantas vezes eu fui. Talvez você não me atropelasse. Talvez segurasse a minha mão para atravessar.
Acho que também não soube lidar com o que sentia. Talvez você também tivesse medo, e o medo paralisa. Eu não sei exatamente o que você sentia, e você parecia tentar me decifrar. Fomos a possibilidade, o quase. E existe coisa pior do que o quase? O quase deixa espaço demais.
Mas eu só queria dizer que, vez ou outra, ou quase sempre, sinto saudade de você.
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