quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Miúdo

A turma mais difícil da escola, ontem, teve que ouvir um sermão. Eu já fui preparada para risadas ou descaso, como sempre acontece, mas desta vez não: eles me ouviram com seriedade e atenção. Ouvi de alguém que eu estava “gastando saliva”. Dei de ombros pode ser! Ajudei outra turma a usar o microscópio e eles ficaram admirados ao ver o que, a olho nu, não podiam enxergar. Então pensei que talvez pudessem sair dali com a capacidade de perceber as coisas miúdas por onde passassem. Depois, quase no fim do dia, a sala do dia anterior precisou ficar sob meus cuidados. Eles me pediram para ouvir músicas. Devo ressaltar que estavam calmos e pareciam outra turma. Talvez eu não tenha gastado saliva à toa… vai saber. Eu disse que não, pois as músicas que eles costumam ouvir não são apropriadas para a idade deles (funk pesado), e expliquei que sou contra. Então me pediram sertanejos melosos, ANAVITÓRIA (Lisboa)… Mas algo mexeu comigo por inteira, mesmo exausta: o aluno que perdeu a mãe há poucos meses me pediu uma música. Os outros reclamaram, obviamente ninguém conhecia o que foi uma pena. Ele disse: “É da sua época”. Y sabe que tenho a mesma idade que sua mãe tinha quando partiu. A música era Na Minha Estante, da Pitty. Y ficou com o olhar vazio, como se houvesse um pouco da morte em seus olhos desde a partida da mãe. Mas logo em seguida, eles brilharam e marejaram feito um riozinho. Eu cantei junto: “eu estava aqui o tempo todo, só você não viu”. Y parecia em transe, cantando a música que só ele e eu conhecíamos naquele momento. Abracei Y com os olhos e ele também me abraçou, como se a música tivesse trazido até ele o beijo de sua mãe em sua testa. Como se nada, nem ninguém, pudesse cortar o cordão umbilical amoroso que o ligava a ela. Foi simples e bonito, miúdo como aquilo que os meninos viram no microscópio e imenso como um mar. Ao se despedir, Y se aproximou de mim e disse: “Sabe, tem uma música que minha avó gostava e minha mãe também. Quero descobrir o nome para saber se também vou gostar.” Eu lhe respondi que, quando descobrisse, me contasse para ouvirmos juntos. Ele disse que ia falar com a tia. O dia inteiro havia valido a pena. É no miúdo que a vida é grande.
Angelina

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