quarta-feira, 3 de setembro de 2025

De um dia qualquer

Escrevo em total desespero, como se escrever me acorrentasse as mãos para não fazer algo de que eu não poderia mais voltar atrás. Não sei se me arrependeria ou se sentiria algum tipo de paz, de silêncio. Sinto que, a cada dia, eu me despeço de tudo e a esperança desaparece, como se nunca houvesse existido. Uma urgência me invade de dizer tudo para as pessoas. Para algumas, consegui dizer o que me feriu, o que me doeu, o que senti; e também ouvi o que elas sentiram. Acertei as arestas em conversas difíceis, conversas amorosas, conversas esclarecedoras. Outras foram apenas para reafirmar o meu amor. Mas, com algumas, infelizmente, vai ficar por dizer, por entender, por acertar ou por fechar o ciclo. Entendo que isso é sobre a vida. Preciso aceitar que nem tudo pode ser resolvido talvez em outra vida, que eu gostaria muito de não ter que voltar a viver, mas sei que ainda estou muito distante disso. Errei, erramos. Perdoo, perdoamos? Vai saber! As crises têm se intensificado de uma forma assustadora, e eu só gostaria que acabassem. Mas todas as formas que penso seriam dolorosas demais não para mim, mas para quem eu amo. Essa dualidade parece que uma hora vai me partir ao meio, como se fosse um cabo de guerra em que as duas forças são iguais e eu sou o meio exato da corda. Se pudesse, ficaria apagada o dia inteiro. Mas não posso, e isso também não resolveria. Minha amiga me manda um texto sobre lembrar do que me faz feliz e de não deixar o mundo me engolir, mas eu já nem sinto que faço parte do mundo como se não houvesse espaço, lugar. Eu sou triste. Eu nunca me dei o devido valor, nunca me amei. Talvez seja por isso que, sempre que amei alguém, eu sentia que aquela pessoa era uma parte muito considerável de mim. Porque eu conseguia amá-la, perdoá-la, fazer o mundo dela ficar mais fácil, tentar resolver os problemas dela. Eu conseguia me doar e fazer tudo o que pudesse por aquela pessoa. Mas eu não consegui fazer por mim mesma, e isso obviamente abriu um buraco enorme no meu peito a longo prazo. Eu me perdi, e não me encontrei mais. Não me acolhi, não me escolhi, não me respeitei, não me retirei quando devia. Já fui questionada milhares de vezes: por que consigo fazer pelos outros, mas não por mim? Em certa ocasião, fui até colocada em xeque: “Como você pode querer me ajudar se não ajuda a si mesma?” A verdade é que deixei de me amar. Nunca achei que merecesse nada. Sempre achei que deveria resolver as coisas sozinha. Sempre me senti um peso na vida das pessoas e, se eu parar para pensar, acho que sempre foi assim. Me perdi. Mas todas as vezes que amei alguém, ou que ajudei, ou quis ajudar, foi genuíno. Desde muito nova, eu só me sentia feliz doando, compartilhando. Óbvio que errei muito no caminho isso me faz humana. Mas eu tenho tanto amor dentro de mim. Talvez essa capacidade de me doar tanto seja porque eu gostaria de ter sido acolhida, amada. Eu já vivi essa experiência. Já amei e fui amada ao mesmo tempo (eu acho, rs!). As pessoas andam falando muito sobre ser amada em voz alta. E eu fiquei pensativa sobre quantas vezes nós somos odiados em voz baixa e o quanto isso pode ser confundido com amor. O perigo de ser odiado em voz baixa, na minha humilde opinião, é ainda pior do que ser amado em voz baixa. O amor nos salva até de nós mesmos. O ódio nos mata, nos afunda, nos enterra, nos apaga do mundo. Tenho tido tantos sonhos tão reais quando consigo dormir… Em especial, um com gêmeas que eu gerava. Lindas. Uma no colo da outra mãe e a outra comigo em uma praia. Eu estava sentada na areia, em frente ao mar, passando protetor solar nas dobrinhas dela, e ela abria o sorriso mais lindo que eu já vi com os olhos idênticos aos da outra mãe. E eu sentia, como se, por elas, tudo valesse a pena. Angelina.

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