sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Não tenho medo da morte

Estou no trabalho. Corro para a sala da minha colega grávida é o único refúgio que tenho, o único lugar onde posso me esconder. Aqui, ninguém entende que, mesmo desmaiada, ainda me chamariam. Encosto-me no canto e o choro vem como um rompimento súbito de barragem, arrastando tudo: a força, o fôlego, a vontade. Meu corpo inteiro arrepia sem trégua. As lágrimas caem tanto que chegam ao chão, e eu escondo o rosto com medo de que algum aluno entre a porta está sempre aberta. Mas não consigo parar.Vou me afogar! Ela, quase ganhando o bebê, quer me ajudar. Eu sei que não é fácil fazer o que eu preciso fazer lá fora .Peço apenas que me busque um pedaço de papel higiênico, para secar o rosto e, com uma máscara de normalidade, voltar para fora, fingindo que nada aconteceu. Tento respirar, mas o ar parece fugir de mim. O disfarce falha. Perguntas me atingem como enxurrada. Se eles soubessem que isso é quase diário, não haveria surpresa só silêncio. Tenho vontade de largar tudo e desaparecer. Rodo pela escola até as pernas cederem, mas ainda quero sair daqui. Tento me conter, mas não desejo voltar para lugar algum só queria que a dor parasse, que essa angústia que me devora por dentro soltasse meu corpo. O arrepio me percorre como uma presença estranha. Não tenho medo da morte, que me chama sem descanso. Tenho medo é da vida.

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