terça-feira, 12 de agosto de 2025
Há várias formas de morrer
Não se morre apenas quando se fecham os olhos e o coração para de bater. Não se morre apenas quando os pulmões param de fazer as trocas gasosas :ventilação, difusão, transporte. Não se morre apenas quando o sangue para de circular ou quando os rins deixam de exercer sua função. Dizem que a alma é eterna, e eu acredito nisso, mas quando ela adoece é como se morresse e isso, infelizmente, acontece com tantas pessoas.
Acho que uma parte de mim começou a morrer já na infância, mas eu bloqueei isso em mim, como é típico de um episódio pós-traumático, e continuei a vida de mãos dadas com a inocência e a esperança que moravam no meu coração de criança. Fui morrendo e renascendo, perdendo um pedaço aqui, outro ali como é a vida da maioria das pessoas.
Nasci com uma intuição apurada, uma sensibilidade exagerada, e em vários momentos da minha existência eu sentia que não cabia em lugar algum. Mas a vida precisava acontecer, e fui me atropelando, me encolhendo, deixando de me escolher todas as vezes em que deveria ter feito isso, apenas para sentir que eu cabia, que eu fazia parte do mundo, que eu agradava. Compreendi que o mundo não pararia para que eu curasse minhas dores. A maioria das pessoas não quer saber das histórias tristes dos outros aprendi a não generalizar com “sempre” ou “nunca”.
Cresci me sentindo um peso e tentava compensar isso incomodando o menos possível. Não fazia traquinagens, era uma boa aluna, boa filha. Mesmo sendo criança ou adolescente, tinha um cuidado exagerado para não decepcionar ninguém. Sempre fui chorona, pois tudo me doía demais, mas aprendi a chorar escondido. Meus pais contam que, nem bebê, eu dava trabalho.
Quando me tornei adulta, continuei carregando coisas pesadas que a maioria das pessoas ao meu redor não fazia e ainda não faz ideia. Continuei permitindo muitas coisas e, a cada dia, me encolhendo para, se possível, não ser vista. Como aquelas crianças que tapam os olhos acreditando que, assim, ninguém as vê e que, de certa forma, tornam-se invisíveis.
Morrer em vida parece inconcebível, mas é real. Desistir de si mesma, abandonar-se, sentir que não se encaixa no mundo, mas agora sem a esperança que segurava firme a mão daquela criança… Não conseguir mais ser quem se era não dói só em mim; e, quando passa a doer no outro, tudo se torna ainda mais insuportável.
Eu quero ir embora. Quero muito, muito mais do que as pessoas possam imaginar.
“Também morrem os lugares onde fomos felizes.”
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