domingo, 30 de agosto de 2026
Iceberg
A depressão deveria ser considerada uma doença autoimune. A minha mente ataca o meu corpo sem dó, atira no peito e eu não tenho coletes à prova de balas. Meu sistema imunológico não consegue pará-la. Aliás, nada tem conseguido!
Eu estou completamente exausta. Sei que já falei isso diversas e infinitas vezes, mas é que, infelizmente, nada mudou. Eu não quero mais fazer faculdade, não tenho energia para isso, mas não consigo aceitar que morrerei na praia pela segunda vez. E penso: se eu continuar aqui, o que vai ser de mim profissionalmente? Vou ser só uma tiazona sozinha e frustrada? E o pior de tudo, sem a menor vontade de estar aqui, vontade essa que eu não sinto há muito, muito tempo. A minha vida é intolerável para mim e eu estou me forçando a continuar, mas sei que, nessa vida, tudo tem um limite e eu cheguei ao meu depois de tantos anos tentando.
Eu tenho lembrado muito de você. Sonho bastante e, em todo lugar por onde já passei com você, você me vem à memória, mas é sempre um sentimento pesado, sabe?
Eu sei que você não me lê, nunca se interessou por isso aqui, mas eu queria que você soubesse que eu não te odeio. Nunca odiei. Falei da boca para fora. E me dói como um soco na cara a forma como você fala de mim, “a doida”.
Você acompanhou de muito perto o que eu passei. Você colocava soro com vitaminas para eu conseguir ser, trabalhar, estudar, e eu ia mesmo sem a mínima condição. Eu sei que errei com você, mas um erro não me define e também não te exime da forma como me tratou, nem de ainda me chamar de doida. Isso tem um peso maldito na minha cabeça.
Não consigo ver ou enxergar isso com maus olhos, mesmo que muitas pessoas que conviveram com nós duas me digam coisas que eu não consigo, até hoje, enxergar.
Eu não digo nada disso querendo você de volta ou querendo te culpabilizar por nada, mas gostaria que as coisas fossem justas. Só que elas nunca serão, e eu vivo revisitando esses lugares insalubres, dolorosos, enquanto você segue a sua vida.
Deixei você em um lugar de vítima porque errei uma vez com você de uma forma injustificável, mas você também errou comigo e jamais vai reconhecer. Sinto que, no fundo, você gosta de saber que eu estou sofrendo. Você me disse, rindo: “Isso é culpa, né?”. Senti o seu contentamento de longe.
Queria apagar você da minha vida. Vi uma vez que demoramos cerca de sete anos para esquecer alguém, mas eu precisava que fosse para ontem. Você me fez acreditar que só você poderia me amar, ou eu deixei você fazer isso, e eu fico em looping, sem chegar a lugar nenhum.
Mas o que eu queria dizer mesmo é que estou, a cada dia, perdendo um pouquinho do controle. Isso dá um pouco de medo, mas também de alívio. Com todo respeito à espiritualidade e à minha família, eu preciso que isso acabe. Não é justo comigo também viver uma vida intragável para que as pessoas que amo não sofram.
Vocês só veem a pontinha do iceberg. Se mergulhassem um pouquinho, entenderiam e talvez também gostariam que isso terminasse.
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