segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Onde estará o meu amor.
Amanhã é meu aniversário, uma data de que não gosto há muitos anos. Acho que gostei até os 15, e depois fiquei absolutamente triste. Os dias estão sendo muito difíceis, e eu não gostaria que isso estivesse acontecendo, porque a gente tem a utopia de achar que o ano se inicia e tudo pode ser diferente, uma página em branco em um caderno bonito, coisa que eu fiz literalmente depois de tomar um banho de limpeza e chorar muito.
Ser permissiva está me desfazendo há anos, e parece que eu nunca aprendo. Ficar tentando ver a parte boa em tudo neste mundo em que vivemos infelizmente é um tiro no pé ou na cabeça, pode escolher: um dói e o outro mata.
Pensei que estar de férias me ajudaria. Sim, meu corpo está descansado, mas o Rivotril tem me ajudado quase diariamente a ficar dormindo. Achei que ficar só seria bom para calar um pouco a minha mente, mas ela parece uma rua movimentada, tipo a Times Square.
Fico reflexiva e pensando por que a minha criança anseia por consertar as coisas, faz esforço para se explicar, para fazer o outro entender por que machuca. Eles sabem. Minha criança aprendeu a viver em alerta, a sempre dizer sim, a tolerar e ser compreensiva para que laços não fossem rompidos, para que quem eu amava e amo não fosse embora.
Quem vê minha família hoje não sabe como a minha criança teve que viver. Só quem também teve que viver isso junto sabe. E é claro que isso viria na minha vida adulta e se refletiria em minhas relações. Ah, mas por que você não é mais essa criança? Tenho uma péssima notícia: sua criança sempre vai fazer parte de você. Você apenas pensa diferente sobre quase tudo, e essa nova visão e reflexão, enquanto adulta, te faz ter clareza sobre o que você viveu. Mas aí vem o pulo do gato, e o mais difícil: vamos mudar ou continuar nesse lugar?
Eu não ouvia “eu te amo”, e eu falava, mesmo que fosse em cartinhas que eu sempre gostei de escrever. Mas eu não ouvia, e então cresci com uma dificuldade de verbalizar “eu te amo”. Acho algo sagrado. “Eu te amo” é sagrado, não é coisa de se dizer como se fosse uma frase qualquer. Aprendi, então, que era suficiente mostrar ao outro que eu amava fazendo coisas de que essa pessoa gostasse, cuidando, em atos de serviço. Mas o “eu te amo” sempre ficou entalado na minha garganta. Sentia uma vontade profunda de dizer e não dizia, e isso fez pessoas que eu amava profundamente acharem que eu não as amava, porque a maioria das pessoas precisa de palavras de afirmação. Então, obviamente, não seria suficiente.
A maioria das pessoas com quem me relacionei tinha medo de que eu fosse embora, mas isso nem se passava pela minha cabeça. Eu sempre tive medo de que elas fossem. Mas eu tive que aprender a ir quando não me cabia mais, onde eu não era mais suficiente. Ninguém tem obrigação de entender e ter paciência para mudanças, ninguém tem que nada. Nas relações dessa geração, então, ninguém tem que nada mesmo, e nem querem.
De fato, o que eu mais anseio na vida, além de ter os meus vivos, saudáveis e felizes, é ser amada. Tenho tanta vontade de ser amada e de amar de volta que acho que é aí que pode morar meu vazio.
Amanhã fazemos 36 anos, Angelina, e sinto muito em te dizer que quase nada saiu como nós planejamos. Quase nada mesmo. Eu queria aqueles amores “bregas”: camisetas iguais ou parecidas (vi um casal hoje com moletons iguais), “ouça essa música, lembrei de você”, “trouxe esse chocolatinho que você gosta”, ser a primeira pessoa para quem eu quero contar qualquer coisa importante que me aconteceu, contar sobre o dia, cozinhar juntas, nunca dormir brigadas ou em camas separadas, comunicação (eu sei que também tenho dificuldade nisso). “Vamos resolver juntas?” “Vamos ouvir músicas bem alto e cantar?” Vou te escrever cartas e bilhetes. Me faz um cafuné? Deixa eu ouvir seu coração bater no teu peito? Deita no meu peito? Eu vou te amar com o olhar, olha bem que você vai saber. Esse olhar só quem eu amo tem.
Eu digo que desisti, que não existe mais isso de amor, de casamento, de um talvez para sempre. Mas é mentira. Eu gostaria de estar correndo pela casa com um bebê com seus olhos, enquanto você nos olha com amor, que estivéssemos planejando nossa próxima viagem e que vocês fossem as minhas pessoas favoritas no mundo.
Eu estou te esperando, seja você quem for. Amanhã, possivelmente, não haverá velinhas para um pedido de olhos fechados. Mas é você que eu vou desejar com todo o meu coração.
Angelina
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