domingo, 21 de dezembro de 2025

Me perdoou

Eu disse que não escreveria sobre você porque não queria te eternizar, mas você é eternizada em mim, mesmo que não tenha levado nenhuma foto nossa. O que vivemos não pode ser apagado por borracha nenhuma. Talvez fosse bom se isso fosse possível, ou não. Fiquei sabendo que você ainda pergunta de mim e, mesmo sem respostas, você ainda pergunta. Não sei por qual razão e nem saberei, porque o nosso laço virou um nó apertado no meu pescoço. Você me disse infinitas vezes que eu te abandonei, mas será que algum dia você vai pensar que me abandonou muito antes de eu ir embora? Acho que não. E isso não muda nada. Eu pensava que precisava que você refletisse sobre isso, mas a verdade é que nada mudaria, nada mesmo. Existem coisas que só podem nascer da naturalidade. Você me convenceu de que eu te abandonei, e eu me senti o pior ser humano habitando a Terra. Esse sentimento me engoliu inteira. Achei não ser digna nem de viver mais. Eu sei que errei com você, e errei feio. Nada justifica. Existia uma maneira melhor e mais honesta de ir embora, mas você sabe que eu jamais iria se não tivesse acontecido como foi. Eu fui embora amando você, e te amei por muito tempo depois, até o amor ser substituído por realidades, e isso é difícil demais. Você fez parte de uma fase muito significativa da minha vida. Foram 13 anos. E quando eu dizia que nunca mais queria conhecer ninguém e que tinha casado com você, não era da boca pra fora. Era do coração pra dentro. Mas eu ouvi de você que tinha tanta certeza de que eu jamais iria embora que não se esforçava para mudar nada. A verdade é que você já havia abandonado o barco, mas era cômodo. Eu nunca vou esquecer quando você me disse que era muito difícil viver com alguém depressivo, que era cansativo. Eu não discordo, mas eu cuidei de você incontáveis vezes, por tantas e tantas vezes só eu estive com você, mesmo quando eu não conseguia cuidar de mim. Eu também estava exausta. E te confesso que só queria saber que você ainda estava ali. Mesmo sem entender na época, eu mendigava o seu amor. Não era você quem tinha medo de que eu fosse embora, era eu. Você só não queria me perder para outra. Você se esqueceu do na saúde e na doença e etc, etc, etc. Eu planejava envelhecer com você e me esforçava sobrenaturalmente para ser funcional para você e para a nossa relação. Talvez você não soubesse da gravidade do que estava acontecendo comigo, mesmo me acompanhando em consultas e me vendo definhar, ou talvez só não tenha feito questão. Eu também me lembro das coisas boas, mas é difícil. Eu teria muitas coisas para escrever aqui, mas não faz diferença nenhuma. Você não vai ler isso. Nunca achou importante. Eu era um livro de poesia e você não fazia questão de ler. Aí virei um daqueles livros com finais tristíssimos. Virei um peso morto na casa que sempre foi sua e nunca nossa. Você teve a liberdade que tanto queria e não me deixou viver a minha também. Não tenha mágoa de mim. Não precisa ter amor nem lembranças. Só não tenha raiva. Eu teria uma pena danada de ir embora daqui um dia sabendo que você sente isso. Este texto que você nunca vai ler é só para dizer que eu me perdoo. Eu me perdoo por ser humana e por poder errar. Eu já te perdoei há muito tempo, mesmo você achando que não me devia nada ou que não fez nada que foi muito ruim para mim. Isso não importa mais. O ciclo se fechou totalmente, como o ano que está se findando. Te escrevo para me perdoar. Porque me perdoar, em algum momento, é me aceitar humana, falha, imperfeita. É não me cobrar uma perfeição que não existe. É saber que eu não te abandonei. É saber que eu fiz tudo e mais um pouco para você ficar. O que nós amamos não existe mais. Eu não existo mais como você me conheceu. E você não existe mais como eu te conheci. De vez em quando vou me lembrar de você, mesmo que eu não queira. Uma poeta disse um dia que tudo o que toca a nossa alma fica eterno. Eu nunca imaginei a vida sem você, e tive que te matar viva. Isso é uma das coisas mais tristes que a gente precisa fazer. E além de você, eu tive que matar uma história e principalmente um pedacinho de amor que dormia em cima de mim e que eu amava demais. Eu já escrevi este texto infinitas vezes e apaguei, comecei e não terminei. Mas não faz diferença para você. Como já disse antes, você nunca se interessou por isso aqui. Mas escrevo para arrebentar as correntes de culpa que arrastei por longos três anos. Fiz o que pude, e talvez mais do que podia. Isso não é um até logo, é um adeus. Você não tem mais a minha culpa e eu não tenho mais as correntes. Você nunca mais terá poder sobre quem eu sou, porque eu sei quem eu sou, e um erro não vai me definir ou guiar a minha vida eternamente. Me perdoo. Me perdoo. Me perdoo. Adeus.

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