sexta-feira, 12 de setembro de 2025
Afago nos cabelos
Um rapaz afagava o cabelo da namorada. Mechinha por mechinha, ele fazia cachinhos com tanto cuidado que o afeto parecia escorrer pelos dedos.
Olhei disfarçadamente, tentando não ser invasiva, e me emocionei.
De início não entendi o porquê. Mas logo, como se uma gaveta esquecida fosse aberta dentro de mim, reconheci a origem: a falta.
Lembrei-me das vezes em que implorei por um afago no lugar que acreditava ser meu lar, meu para sempre. Como pude desejar eternidade em um espaço onde até um simples carinho precisava ser suplicado?
A lembrança veio como tempestade. Rodopiou em mim a frase que eu sempre repetia:
“Se um dia fores embora, cortarei meus cabelos para que não sinta falta de teus cafunés.”
De onde vinha essa carência? Por que aceitei migalhas tentando calar um vazio tão profundo?
Bastou a cena de um gesto simples, tão natural, para me desmontar.
Não como saudade, mas como a pergunta inevitável:
como pude achar descanso e lar onde nunca houve ternura?
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