sexta-feira, 15 de novembro de 2024
Silêncio
Perdi o sono. O dia está sendo mais difícil do que os que tenho me adaptado ao longo dos anos. Eu poderia sentar com quem ainda tem interesse em me ouvir e passar dias tentando explicar sobre a dor, a falta do medo de coisas que deveríamos ter e o medo insano do que não deveríamos ter, mas infelizmente não poderiam entender. Às vezes, nem eu entendo como cheguei nesse lugar, e acho tristíssimo. Eu nunca planejei muitas coisas para minha vida, mas nunca imaginei que, no auge dos meus quase 35 anos, eu não quisesse mais estar aqui, com essa força, como se a centelha da vida tivesse sido apagada. As pessoas ao meu redor sofrem, não entendem, se chateiam, mas eu tenho dado o máximo que consigo, e eu não posso, no meio de tanta dor, tentar fazer com que entendam e não se entristeçam comigo, ou do esforço sobre-humano para, em alguns dias, me levantar da cama, me alimentar, beber água, não chorar e olhar com um pouco de afeto, ao menos, para mim mesma.
É uma doença devastadora, dói mais do que dente cariado ou dedo batido na porta, e por não deixar o hematoma evidente, sei que é difícil ser compreendida e não ser cuidada com o devido zelo pela saúde. Sempre soube do preconceito que permeia quem tem problemas mentais, mas, pela primeira vez, tive que parar em um hospital com uma crise de pânico assustadora. O olhar de “olha o piti”, a demora no atendimento, mesmo com o plano de saúde, e eu hiperventilando. A aplicação do calmante no local errado, enquanto eu, da área da saúde, estava completamente fragilizada e em um lugar de vulnerabilidade. O plantonista me negar um atestado de dois dias alegando não ser psiquiatra (eu que nunca peguei atestado, que nunca faltei à escola, à faculdade, à pós-graduação e muito menos ao trabalho)sem real necessidade ou ate mesmo quando haviam . É exaustivo!
Confesso que, mesmo me afastando e não conseguindo ter contato físico, esta noite eu gostaria de dormir com um carinho na cabeça e um abraço tão apertado, demorado, amoroso e afetuoso que sufocasse a dor daqui de dentro.
Angelina Dias
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