Quando eu era criança eu tinha medo do escuro, não conseguia dormir sozinha, o medo era tanto que quando eu tinha que fazer isso eu ficava debaixo do cobertor por completo suando frio e em pânico eu também tinha sonambulismo, a ponto de pegar o uniforme da escola, as 20 horas da noite, tomar banho e ir, e ser pega e “acordada” pelos meus pais para voltar para cama! A ansiedade já parecia instalada no meu DNA! Hoje eu me vejo como aquela criança escondida debaixo do cobertor, são 04:30 da manhã e eu já estou acordada, tendo uma crise de ansiedade daquelas que dão diarreia! Ontem, uma pessoa muito querida da nossa família partiu, rodeado por sua família, com uma médica em casa e com sua amada mulher, a quem ele amou como um ser humano deve ser amado. Ele escreveu até uma música para cantarem no velório dele! Eu fui, abracei toda a família, mas não suportei ficar lá muito tempo, já há vazio demais em mim! Não pude não lembrar do meu avô, parecia que estava tudo se repetindo! O mesmo local de velório, as mesmas pessoas reunidas, a minha avó chorava bastante, a viúva que é irmã dele também! Me encostei na parede meio acuada, olhando tudo em volta e chorando como quando você não quer que ninguém veja. Meus pais me chamam para me sentar perto, não consigo, continuo encostada na parede! E diante de toda a dor de todas aquelas pessoas, eu direcionei o olhar para onde ficaria o caixão, e me imaginei lá, apesar do alívio que aquilo me causava, quando vi minha avó chorando pelo cunhado tão querido! Pensei: como eu poderia fazer isso com ela? E com meus pais, que estão sofrendo tanto de me verem dessa maneira? Foi ficando tão insuportável que fui embora, não me despedi de ninguém, apenas fui! Eu, a minha dor, meu vazio, a minha tristeza, minha ansiedade violenta! E eu não tenho mais medo do escuro! Não sei se isso pode ser bom ou ruim! Angelina.
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